sábado, 5 de fevereiro de 2011

Show resgata 30 anos de Massafeira

Helio Barcellos Jr.

Ednardo se emociona ao falar do Massafeira
Livre, o movimento composto por
um festival de música e de artes cênicas
realizado em 1979 no Theatro José de Alencar,
em Fortaleza, no Ceará. As canções dos
shows, reunindo mais de duas dezenas de
músicos, foram gravadas semanas depois
em uma gravadora no Rio de Janeiro. A
proposta, que reuniu 400 artistas, era de
ser um caleidoscópio de todos. E foi o que
aconteceu, apesar da forte repressão da
ditadura então em vigor.

Em 2008, o cantor começou a se debru-
çar sobre um novo capítulo do movimento
que mudou para sempre a trajetória dos
artistas que o integraram. Ele organizou o
livro Massafeira - 30 anos - Som - Imagem
- Movimento - Gente, que tem 312 páginas,
centenas de fotos, além de um encarte com
os dois discos remasterizados. Ednardo
comenta que o livro, que teve três mil exemplares
editados, é procurado que nem água,
que vai se esgotar logo, ainda que muitos
exemplares tenham sido distribuídos em
escolas e bibliotecas. Nomes como Rodger
Rogério, Petrúcio Maia, Augusto Pontes,
Teti, Stélio Valle, Ricardo Bezerra, Mona
Gadelha participam com depoimentos ou
textos próprios na obra. Eles também estão
nos discos, assim como Patativa do Assaré,
Belchior e Fagner. Entre outros dados, o
livro reproduz também um texto que Ednardo
escreveu à época da Massafeira, que
.se materializou em forma de um grande
ajuntamento de som, imagem, movimento,
poesia e muita gente transando, tudo isso
numa efervescência febril, bela e loucamente
solta durante quatro dias.. Em sua
essência, o Massafeira mudou a visão dos
artistas, que passaram a achar que não era
mais necessário ter que viver no centro do
País para garantir seu sustento.

Na quarta-feira, Ednardo estará em Porto
Alegre para um show e o lançamento do
livro. Ele, que também participou do evento
coletivo Cio da Terra em Caxias do Sul, em
1982, vai cantar músicas da Massafeira,
seus maiores sucessos, como Pavão Mysterioso
e Manga Rosa, e também vai mostrar
novidades. Vai ser um show de voz e violão,
eu diria que será um repertório de passeio
amplo, uma panorâmica de minha carreira,
um sarau litero-musical., destaca.

Ednardo acredita que o resgate da
Massafeira Livre pode vir a influenciar
artistas que hoje em dia estão começando,
porque ele relembra o conceito de espetá-
culo coletivo. No livro fazemos questão
de ressaltar que a gente pode fazer coisas
deste tipo, que é possível realizar eventos
sem filtragem pré-determinada, que é
possível encontrar uma saída dentro de
um mercado que aposta sempre nos mesmos
nomes, que por melhores que sejam,
acabam sufocando a expressão de muitos
outros., argumenta. Para ele, o Ceará e o
Rio Grande do Sul são polos gêmeos em
função de suas possibilidades existenciais,
pois a batalha de fazer, de ser aceito pelas
grandes comunicações de massa, é exatamente
a mesma.

Apesar do sucesso, quase não existem
registros do movimento na imprensa do
passado. A censura impediu que fosse amplamente
divulgado nos veículos. Muitas
entrevistas foram realizadas, mas jamais
foram publicadas ou exibidas. Mais do que
isso, havia agentes da repressão infiltrados
nos bastidores do show. Ele mesmo chegou a
sofrer uma prisão relâmpago e teve sua casa
invadida, com livros e discos destruídos.
Além disso, vários dos artistas do Massafeira
foram presos, sob as acusações de
participação em movimentos estudantis, de
promover caravanas culturais ou de realizar
trilhas sonoras para espetáculos de grupos
de teatro. Ednardo lembra que os artistas
viviam no exílio em sua própria terra, mas,
sem saber, estavam fazendo história.

Show com Ednardo e lançamento do livro Massafeira Livre: no Átrio do
Santander Cultural (Sete de Setembro, 1028), nesta quarta (2/2), às 19h.
Ingressos a R$ 10,00.

Foi em 1976 que Pavão Mysterioso,
a música mais conhecida de Ednardo,
transformou-se em um ícone de sua
carreira artística. A música fez sucesso
em todo o Brasil porque era o tema de
abertura da novela Saramandaia, de
Dias Gomes, em que Wilza Carla explodia,
Juca de Oliveira voava e Sônia Braga
pegava fogo, em função de seu furor
uterino. Hoje Ednardo diz que é quase
impossível não cantá-la em seus shows.
Ele diz que é uma honra, que ela é uma
referência: .Músicas de outros tempos
não me deixam aperreado, canto com
muito prazer, com a mesma energia de
sempre, não fico de saco cheio., comenta.
Ele lembra que há alguns semanas fez
um show no Canecão, no Rio, quando
90% das pessoas eram muito jovens. Ele
achou que elas não se lembrariam, mas
na hora todos cantaram.

O músico acredita que é a internet que
ajuda a fazer com que os sucessos do passado
continuem na boca do povo. Ela representa
um campo mais favorável para
os artistas do que as gravadoras., diz.

De Pavão Mysterioso, Ednardo lembra
que a música também foi gravada mais
de 20 vezes, inclusive na Europa, virou
hino GLS e é considerada sagrada pelos
índios do Xingu. Mas ele diz que o sucesso
dela não mudou sua trajetória, pois ele já
não era mais um garoto quando estourou.
Ela, aliás, nem era uma música nova, pois
integrou originalmente o segundo dos três
discos que gravou antes da novela.

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