quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Na época do lançamento de Orós – Fagner concedeu uma entrevista à jornalista Ana Maria Bahiana que ocupou uma página inteira do jornal “O Globo”, em sua edição de 8/9/77. Aqui, trechos em que ele comenta sobre o seu disco:

“Eu comecei a fazer esse disco logo depois do “Raimundo” porque o “Raimundo”era o fechar de um ciclo que vinha do “Manera Fru Fru” e do “Ave Noturna”. E mais rápido do que fechar, a gente tem é que abrir logo, não é ? Meus planos eram de fazer esse disco fora do Brasil, por causa das condições de trabalho. Mas de repente eu vi, no Hermeto, a possibilidade de fazer esse disco sem sair do Brasil. Ou seja, ampliar o meu trabalho dentro da minha expectativa. Pegar temas como é o “Orós”, que é totalmente instrumental, pegar músicas sem preocupação de ser esse ou aquele ritmo, bem livres, como “Fofoca”, que a gente fez no estúdio mesmo, e ao mesmo tempo recriar canções como “Esquecimento”, como “Flor da paisagem”, com arranjos belíssimos do Hermeto. Quer dizer, aí esta o lado normal do que eu venho fazendo, somado ao lado do Hermeto como arranjador.

Então esse disco não é só meu: é meu e do Hermeto. E um disco onde o Hermeto mostra em primeira mão um lado dele como arranjador. E o começo de um trabalho que está se abrindo tanto para mim como para ele, pra ele enxergar algumas coisas de dentro, e pra eu enxergar algumas coisas de fora. O que eu digo “de dentro” é que , muitas vezes, um criador da qualidade do Hermeto não gostaria de entrar num trabalho popular, mais de canção, tá me entendendo ?

Eu procurei o Hermeto porque não tinha outro, realmente, que pudesse fazer. A nossa afinidade está no Nordeste, a minha música é uma música que ele conhece. Eu toco para ele um lá, um mi e um si e ele já sabe tudo o que fazer dali. Já está na cabeça dele. Ele não está inventando nada, está colocando uma coisa que não é nem eu nem ele, que é a música. Não podia ser de outra forma, porque nós nascemos do mesmo berço. Hermeto foi a coisa que explodiu a minha cabeça, mas eu tenho certeza que dei muita alegria a ele, também.

Porque eu sempre tive esse lado de músico, desde quando eu tinha os meus conjuntos lá no Ceará. E em todos os meus discos eu dei os toques como arranjador, como músico. Só que esse lado estava meio amornado, porque eu sempre exigi mais de mim como compositor, como cantor. Aí, na hora em que eu quero desenvolver de novo o meu lado de músico, encontro o Hermeto, que me dá os toques certos, que é a pessoa certa para fazer isso. Ele chegou e acendeu a lareira. Hoje eu sou um cantor, um compositor, mas eu ainda vou explorar o meu lado musical, ainda vou recuperar.”

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