sexta-feira, 23 de abril de 2010

Amelinha - Entrevista de 1983

Foto de Geraldo Viola
Em 1983, quando estava lançando o seu LP “Romance da Lua Lua”, Amelinha concedeu a entrevista que transcrevo abaixo, à repórter Sandra Bittencourt, e foi publicada na revista JB – Suplemento Semanal do Jornal do Brasil.

“Naquela tarde , no restaurante do Hotel Sol Ipanema, a cantora Amelinha revelava estar num de seus melhores dias: havia dormido muito bem, sem entrar em “culpa” diante dos vários compromissos atuais, e se sentia feliz pelos resultado de seu último LP, “Romance da Lua Lua, lançado recentemente e já a caminho de ser disco de ouro.
Por outro lado, o estado de espírito em que se encontra vem muito também do preparo que lhe foi exigido para a confecção do novo LP – conforme sugere o título, a cantora se predispôs, durante um mês, a ficar observando o céu estrelado de Fortaleza, tomando banho de lua cheia, curtindo o movimento da noite de lá.

- Hoje eu me sinto com mais consciência das maravilhas que estão a nosso redor, e mais determinada a fazer as coisas acontecerem. Uma determinação de lutar com coragem e espalhar mais luz do que desânimo. Mais vontade de viver, de ser útil. Nesse disco, cito como grande responsável o produtor Zé Ramalho – que organizou muito minha vida, minha carreira, e compôs também o meu lance musical .

Para quem não sabe, o produtor Zé Ramalho a quem Amelinha se refere é também seu marido – “mas a gente tem de separar porque dá confusão”- diz ela – “assim como a gente tem de separar as emoções de ser mãe, cantora e mulher”. “Romance da Lua Lua”- cuja música título é uma flaviola em um poema de Garcia Lorca – é o seu quinto LP (antecedido por “Flor da Paisagem”, “Frevo Mulher”, “Porta Secreta” e “Mulher Nova”) e traz como tema, no primeiro lado do disco, canções que falam da lua:

- O tema lua surgiu porque recebemos muitas fitas com letras sobre o assunto, que, inclusive, já havia sido muito cantado em serestas e carnavais. Juntou-se a isto uma canção composta por Jorge Mautner – “Lá vem São Jorge (Hino de São Jorge) – que ele fez num momento em que estava com um problema de saúde, além das conversas com o Gil, e o fato de eu ser de Câncer, com regente em lua. Tudo isso me fez acreditar que estava no caminho certo.

Do outro lado do disco, seguindo a essência nordestina, o destaque é para “Seresta Sertaneja”, de Elomar Figueira de Mello, “um compositor que me fez chorar, porque só depois de um ano decidiu dar a música para mim.”
O essencial é que hoje, aos 32 anos, Amelinha sente-se mais segura e com um nível muito maior de concentração em seu trabalho. “Antes, quando eu entreva em estúdio, tinha de apagar a luz, tomar conhaque, mel, me esconder atrás de um tapume. Agora não, canto no claro e de frente para a cabine de gravação.” Uma revolução consciente, que a acompanha desde o primeiro sucesso, que foi a música “Foi Deus quem fez você” (700 mil compactos vendidos):

- Naquela época, ao invés de eu ir em frente e esgotar o que o momento me exigia, optei por me recolher, passando dois anos afastada dos compromissos artísticos. Mas foi bom. Foi um período em que fiquei em casa para dar uma “arrumada” na minha cabeça. Meu filho João estava pequeno (hoje com três anos e meio) e isto assentou o período: era a ascensão da carreira junto com o primeiro filho, em apenas dois anos de casada. O incrível é que , depois que tive o João, fiquei com outra cabeça, mais amadurecida e senti de perto aquela coisa de continuação da gente. Na realidade, eu não pensava em ser mãe porque achava que iria deixar de ser filha. E eu sempre gostei de ser filhinha, mimada por minha família.

Da necessidade de superação desse estado, foi que, aos 20 anos, Amelinha saía de Fortaleza para tentar a vida em São Paulo - “eu queria descobrir quem eu era e como iria me virar sozinha”. Uma mudança que não foi fácil. Em Fortaleza, ela era o “quindim” dos saraus em família e discípula assídua de D. Sílvia – uma irmã salesiana e tia-cantora predileta.

- Chegando em São Paulo fui para uma república de mulheres, um lugar onde você tem de se virar sozinha. E eu me sentia muito feliz até em ter de lavar minhas roupas porque estava cuidando de mim, no caminho para descobrir minhas potencialidades.

E foi numa de suas idas a Fortaleza que Amelinha entrou em contato com a turma de cearenses que estava revolucionando a música do lugar. Nomes como Fagner, Belchior, Petrúcio Maia , Ednardo e Brandão.

- Mas eu estava um pouco em dúvida se encarava ou não a carreira. Achava que o processo poderia ser muito doloroso. Era uma época em que ainda se dizia que era um perigo ser cantora por causa dos “gaviões”. E eu vivia participando dos shows do Fagner que até já estava cansado de me apresentar, e vivia me dizendo – “tá na hora de fazer um show teu”. Daí, quando a coisa é mais forte dentro da gente, não dá pra segurar.
Através do próprio Fagner, o convite para uma temporada em Punta Del Este e Buenos Aires, em janeiro de 76, ao lado de Toquinho e Vinícius de Moraes – “nesse tempo eu era muito tímida e o Toquinho sempre me dava força dizendo: “cante, bichinha, como você canta na janela!” De volta, alguns meses depois, a gravação do primeiro LP, “Flor da Paisagem”, produzido por Fagner – “me assustaram tanto, que eu só assinei o contrato quando coloquei os pés no estúdio”. E foi em 78, quando decidiu vir morar no Rio, que Amelinha conheceu Zé Ramalho – “eu estava fascinada com o trabalho dele em “Avohai” e fui assisti-lo em um show. Quando nos encontramos no camarim, antes que eu dissesse qualquer coisa, ele pediu pata tocar no meu disco. Éramos tietes um do outro sem nos conhecermos.

Do encontro até “Frevo Mulher” - que Zé Ramalho compôs especialmente para Amelinha – foi um pulo de amor. Casados há cinco anos, o casal tem dois filhos: João, de três anos e meio, e Maria, atualmente com um ano e meio. Segundo Amelinha, os dois já estão seguindo os passos dos pais, pois o garoto adora fazer a “mise-en-scene” do guitarrista, e curte demais Robertinho de Recife, Gilberto “Viu”, Roberto “Carro” e os “Ôlin Istones”. Maria, por outro lado, não pode ouvir nenhum som que já sai requebrando. Morando na Praia do Futuro, bairro de Fortaleza, atualmente é mais fácil, para Amelinha, dividir-se entre mãe e profissional.

- À medida que fui vivenciando as coisas fui sacando o tempo para cada uma delas. Nessa correria, o básico de tudo é a organização. Hoje, eu posso estar aqui no Rio e emendar para uma temporada, sem maiores problemas. Minha mãe e minhas tias já estão todas organizadas para cuidar das crianças. Acredito que a idade me tenha trazido o senso de simultaneidade, ao saber me realizar como mãe, mulher e profissional. Como mãe a gente tem de ser mais forte do que antes, para dar segurança aos filhos – e eu gosto desse jogo. Então me sinto num momento de mais domínio de tudo, cantando melhor do que antes, crescendo. E, no meu canto, procuro levar as pessoas a sentir o brilho das coisas, a luz e a esperança. Olhar sempre para cima. E viver ao máximo esse enorme romance com a vida”.

Um comentário:

Edu César disse...

Visite o "Blog" - Homenagem para Amelinha -http://ocantodaamelinha.blogspot.com.br/

Vídeo de Zeca Zines no You Tube - Sensacional!