sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Artigo de Fagner - 1976

Infelizmente as revistas especializadas em música nunca duraram muito no Brasil. Ao longo do tempo foram várias que surgiram, sempre com vida curta. Na metade dos anos 70 existia a “Hit –Pop” que possuía em sua páginas uma coluna chamada “Recado”, onde artistas eram convidados a escrever um artigo sobre o que quisessem. O “recado” dado por Fagner, em 1976, foi o seguinte:

“A gente vai chegando do Nordeste e vê tudo diferente. Na hora que chega, é um pânico. Depois, se torna até muito engraçado. A maneira como nos olham e definem: somos os paraíbas das construções, os pau de araras das feiras de São Cristóvão. Os famintos. E aí chegamos e enfrentamos tudo isso como se estivéssemos entrando em outro país. Se vocês não sabem, essa maneira falsamente gentil que nos é imposta, favorece demais para que rapidamente encontremos nosso espaço e batalhemos furiosamente , pois nossa intenção não é outra senão fazer com que nos olhem realmente como somos. É uma batalha desumana essa de chegar e conquistar um lugar ao sol no meio de tanta fera solta. Eu vim disposto a arriar minha bagagem e não para levá-la de volta para casa. Comi o pão que o diabo amassou, dei murro em ponta de faca, continuo me expondo e tenho aprendido as coisas às custas de muita porrada. Falo, grito e não me faço de satisfeito para fazer média com ninguém. Não faz parte de mim um falso sorriso. Tenho compromisso com a arte, com o meu tempo. Tenho que defender o que está comigo e o que está por vir. Hoje, tá é bom. A moda é ser do Nordeste, como é moda ser brasileiro para quem caminha em terras estrangeiras. Falam erradinho nossos termos mais corriqueiros e folclorizam nossa maneira de falar e ser, no rádio, nos jornais e na TV. Enfim, somos a moda.

É muito fácil falarem bem de você quando você já não precisa muito de ajuda. Difícil é te enxergarem enquanto você está solitário na estrada. Mas é sempre assim. Até nossos pais dificultam nosso caminho com seus ideais e dificilmente nos dão força para que façamos o que realmente está dentro de nossas cabeças. Esta história é antiga. Ainda hoje quando piso em Fortaleza, lá está minha mãe, sempre me cobrando a droga da universidade que larguei por necessidade. Também pudera, pois desde criança já andava nos bastidores das rádios. E essa coisa de música pra mim não é por acaso e nem circunstância nenhuma me levou a tal posição. Nasci e briguei com essa paixão e nada faz com que eu abra mão de brigar por ela em todos os momentos. Desde criança ouvia serestas, Luiz Gonzaga, sambas e boleros. Com o surgimento dos Beatles e Roberto Carlos, nasceu em mim um outro brilho e também uma expectativa mais ampla de calmamente construir meu trabalho e preencher o espaço que me pertence e ao povo também. Meus primeiros discos são bem diferentes e com meu terceiro LP pretendo alcançar todas as camadas e mudar conscientemente o percurso das coisas que acontecem no Brasil. Não pretendo mais cantar unicamente para intelectuais ou classes mais esclarecidas. Tenho me sentido na obrigação de alertar principalmente essa nossa juventude, bela e desinformada. Ela está totalmente sem saída diante de tantas pressões e falsas opressões. É a moda americana, a música importada, a loucura tão amplamente comercializada. Tudo isso faz com que a gente fique perdido, embarque em qualquer uma, e não saiba mais o caminho de casa. Eles estão jogando energia fora e perdendo seu precioso tempo. Nós não temos nada com o que vem de fora. Temos que construir nossa própria família e lutar por nossas aspirações. Acho que a saída é essa.”

Um comentário:

Geraldo disse...

Cara amiga Klaudia,
achei incrível o depoimento de Fagner. Você conseguiu resgatar uma pérola. Noto nas palavras a posição firme, segura de quem sabe o que quer e onde vai chegar. Também, a necessidade de cantar para o povão, vender discos, coisa que só começaria mesmo a acontecer a partir de Revelação e, depois, a partir do ingresso dele na RCA-BMG. As bases para o canto de Fagner estavam lá, a nordestinidade, Luiz Gonzaga, os seresteiros... Tudo isto mostra que Fagner foi coerente em toda a sua carreira, por mais que não gostem aqueles que preferiram rotulá-lo e não entenderam que por trás das metamorfoses, ele manteve a mesma essência, presente no interessante depoimento.

Parabéns Fagner. Parabéns Klaudia.

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