terça-feira, 13 de outubro de 2009

Fagner - Release de gravadora - 1986


Fagner é o cantor, é o homem. É a esperança , é a emoção traduzida em palavras e sons. Parceiro recente de Fagner em “Os amantes”, faixa do Lp “Fagner” (disco de platina esta semana), o poeta Affonso Romano de Sant’Anna traça do artista um retrato fiel:
- Fagner nasceu com uma maneira de fazer as coisas que o distingue dos demais. Fagner tem uma marca. Tem um estilo. Esse som agreste de paixão ibérica e nordestina é inconfundível.
Affonso fala do artista polêmico, do incansável batalhador, do criador de casos do passado, sempre envolvido em polêmicas, e que hoje prefere contar “os milagres sem expor os santos”, para não transformar opiniões pessoais em assuntos de domínio público. Affonso fala do artista maduro, que chegou aos 36 anos sabendo exatamente de onde veio e para onde vai.

Nordestino de Orós, nascido numa família pobre, de mãe cearense e pai libanês, o mais novo de cinco filhos, Fagner fez um caminho diferente de outros artistas. Enquanto os cantadores do nordeste tentavam vencer no Rio e em São Paulo, as grandes capiatis da arte, Fagner começava por Brasília onde, estudante de arquitetura, rapaz ingênuo do interior, tentava “enfrentar batalhas e não sair com marcas”. Era um sonho. Impossível. A começar pelo gênio do próprio cantor, do tipo que não leva desaforo para casa.
-Naquela época eu não ouvia ninguém. Fiz tudo que uma pessoa não devia fazer ,e, por incrível que pareça, deu tudo certo. Fiz jus à minha juventude, à minha rebeldia. Estiquei o elástico no limite e parei na hora certa.
Fagner afirma que hoje conhece seu próprio espaço e sabe que tem que fazer algumas coisas e não precisa fazer todas as coisas:
-Tem gente que hoje me provoca porque sabe que briga comigo dá promoção. Eu acho é graça...

Muito tranqüilo, bem mais acessível e simpático que do que há dez anos atrás, saboreia o sucesso do último LP – Fagner – o primeiro pela gravadora RCA ( e o 14º de sua carreira), lançado em Fortaleza no dia 13 de outubro de 1986, data do seu aniversário.
“Dona da minha cabeça”(Geraldo Azevedoe Fausto Nilo) já cumpriu o ciclo inicial de trabalho do LP. Agora é a vez de “Lua do Leblon” (Lisieux Costa e Fausto Nilo), incluída em “Corpo Santo”, novela da TV Manchete, que deverá crescer como tema de um dos personagens femininos:
Essa não é a primeira vez que uma música de Fagner faz sucesso em novelas. “Noturno”(Coração Alado), “Pensamento”(Final Feliz) e “Revelação” (Cara a Cara) já deram bons frutos: Aliás, de 1978 para cá , ele não tem do que se queixar. Todos os trabalhos lhe deram disco de ouro. “Revelação:, do LP “Quem viver chorará” revelou um novo mito. As fãs perseguiam o rapaz de feições marcadas, jeitão caipirão, agressivo e intempestivo.
Fagner passou a conviver com suspiros, algumas perseguições e muitos telefonemas. Alguns bem constrangedores:
-Ser um objeto de desejo tem o seu lado positivo. Dá um pouco de trabalho administrar este tipo de relacionamento com as pessoas, mas acho que dá para dar um pouco de atenção às fãs, tratando-as como pessoas, como gente. Cheguei até a fazer amigas...
O reconhecimento do público, para Fagner, é o que mais gratifica um artista:
-A gente dá tudo, faz um trabalho bem feito, quer uma resposta positiva. Não é o que escrevem sobre mim, contra ou a favor, que vai influir. Ninguém engana um grande público durante muito tempo. Há modas e artistas. Artistas que conquistam um público e outros que estão dentro de uma onda. Esses, quando a maré baixa, se mostram no quem é quem. Um artista tem que ter confiança no seu trabalho, consciência do seu valor e muita categoria para trabalhar.

Colecionando discos de ouro, responsável pelo estouro de “Traduzir-se”, na América Latina, um feito jamais alcançado anteriormente (só na Argentina o disco vendeu 100 mil cópias, um verdadeiro recorde para mercado tão pequeno) Fagner prepara-se agora para novas conquistas. Depois de terminar o segundo LP com Gonzagão, deverá partir para a gravação de um show ao vivo, provavelmente em São Paulo, ou no Rio.

No momento um outro desafio atrai o artista. Compositor e cantor a vida inteira, Fagner se deixou atrair pelo brilho das telas. Este ano ainda, inicia as gravações de “Rainha da Vida”, um seriado da TV Manchete, onde assina o tema, a direção musical e no qual faz o papel principal ao lado de Florinda Bulcão. A minissérie de Wilson Aguiar e Glória Perez é apenas um dos trabalhos pensados para essa nova fase. Ele já foi convidado, e aceitou, trabalhar com Augusto Ribeiro em “O quinze”, de Raquel de Queiroz, tarefa que Fagner encara com a maior tranqüilidade:
-Quando eu tinha 13 anos, lá no nordeste, apareci em Oliver Twist, uma novela da TV Ceará. Era um papel muito pequeno mas já deu para sonhar. Em “Rainha da Vida”vou viver um padre idealista que luta contra a corrupção, o coronelismo e todos esses ingredientes que prendem o telespectador.
-Não tem essa não. Decorar textos? Besteira. Aos 15 anos decorei o “Fim trágico de Inês de Castro”(Lusíadas). Sabia de cor aquele dramalhão e depois cinema é emoção. Não vou fazer filme para criar polêmicas, nem para passar em feiras de amostra. Cinema tem que atingir o grande público, fazer sucesso. Não é coisa para meia dúzia. Tarcísio Meira que se cuide.

Determinado na conquista de novos espaços, Fagner reconhece a importância do apoio de amigos como Elis Regina, Marília Pêra, Nara Leão, Roberto Carlos, Vinícius de Moraes, Chico Buarque e Erasmo Carlos no início de sua carreira e pensa com cuidado em atravessar as fronteiras brasileiras:
-Estou trabalhando meu disco no Brasil e em maio devo ir à Europa. Não tenho um trabalho constante fora do meu país, apenas uma ou outra participação em discos como o de Garcia Lorca – Poetas em Nova York, no qual colaboram também Paco de Lucia, Leonard Cohen, Donovan, Mustaki e Chico Buarque.
Nesse disco, que será lançado em Nova York, Paris e Espanha a partir de outubro, cada compositor se inspirou num texto de Lorca para gravar uma música, em seu próprio idiona.
-Gravo ainda em espanhol, duas faixas do meu 14º LP – Fagner- , que será trabalhado pela gravadora em países de língua latina.
Essa não é a primeira incursão em língua estrangeira. Como também não é uma concessão:
-Essa coisa está no meu sangue libanês – os árabes, a Espanha, o canto Flamenco. Não estou entrando num esquema merchandising. Isto não me interessa. Poderia tirar a sinceridade de propósito do meu trabalho. Se um disco não tem valor no Brasil, não adianta lançar lá fora. A ponte não tem essa distância que se imagina. Perdi a vontade de passar tempos lá fora. Minha preocupação mesmo é com a estrada de Santarém, o que posso fazer por Orós. Minha carreira é como um barco. Eu vou remando, se quiserem que me apresse, eu olho mais fundo...

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