terça-feira, 22 de setembro de 2009

Patativa no livro de Aquiles Reis (do MPB-4)

Aquiles Rique Reis é um dos integrantes do grupo vocal MPB-4 e lançou em 2004 seu livro chamado “O gogó de Aquiles” onde conta com muita emoção sua relação profunda com a música brasileira e seus (suas) intérpretes. O livro , excelente por sinal, é uma verdadeira declaração de amor à MPB e um dos capítulos- que reproduzo abaixo- foi dedicado à Patativa do Assaré. O livro tem também pequenos contos de ficção (ou quase) excelentes.

Livro – O gogó de Aquiles – Aquiles Rique Reis – Editora Girafa – 2004 – Págs 152 a 154:

“Patativa do Assaré era um homem voltado para sentir as palavras. Um sertanejo calejado na luta para traduzir o sentimento do nordestino. Cego dos olhos, como o Assum Preto. Com os ouvidos moucos de tanto ouvir a ladainha dos pobres de espírito, restava-lhe a poesia. Restavam-lhe as palavras que, juntas, valiam a voz do homem do sertão do Ceará, sua terra natal. Homem brasileiro que se orgulhava de sua gente e fazia versos que eram como uma câmera fotográfica a registrar com crueza a miséria de sua gente. Criador de frases, seu mundo era o mundão dos grotões e das caatingas. Sua voz ecoava pelos quatro cantos do Nordeste tão miserável quanto rico. A mesquinharia dos coronéis, senhores feudais e cafetões da seca secular, excluiu um pedaço brasileiro dentro do Brasil. Como uma perna amputada do tronco, o Nordeste teima em se apoiar na voz de seus cantadores. Tenta resistir na ponta do lápis de seus poetas. Tenta não deixar que se apague a chama de vida nascida da terra árida que faz sua música brotar do chão esturricado pelo sol de arder a pele e a alma.

Patativa falava a língua nordestina com o sotaque de seu povo. Sua gente o entendia e idolatrava. Suas palavras formavam um caminho que ligava Assaré ao resto do país. Essa estrada formada por versos batidos em meio à terra seca levava Patativa mundo afora. O poeta fez de suas andanças seu viver e relatava-as àqueles que são ávidos por ouvir histórias do homem que traça o seu destino com palavras.

Antonio Gonçalves da Silva disse: “A poesia sempre foi e ainda está sendo a maior distração da minha vida.” Um homem que se divertia chamando seus irmãos à luta. Um poeta que vivia para fazer com que seus versos fossem usados pelos seus conterrâneos para buscar uma vida mais digna.

Patativa não ouvia e não enxergava. (Nota do blog: Pelo que sei, Patativa tinha problemas em apenas um dos olhos e não era surdo. A menos que Aquiles esteja falando já do final da vida dele, quando pode ter ficado surdo, não sei). Vivia sentado em sua cadeira de balanço, ritmando seus dias ao sabor do nascer e do por do sol. Patativa era um de seus personagens, ele e todos os que vivem pelo sertão adentro. Em sua antologia “Cante lá que eu canto cá”, organizada pelo pesquisador Plácido Cidade Nuvens e lançada pela Editora Vozes em 1978, Patativa do Assaré ensina: “Morre aquela criatura/Depois a pobre coitada/No rumo da sepultura/Numa rede imbruiada/Um adjunto de gente/Uns atrás otras na frente/Num apressado rojão/Quando um sorta o otro pega/É assim que se carrega/Morte pobre no sertão.” Em sua escrita que reproduz o falar do homem nordestino o poeta revelava o que seus olhos já não viam, e cantava as cantigas que seus ouvidos já não escutavam.

Patativa não costumava ser muito gentil com o monte de políticos que, na época de eleição, iam procura-lo em sua casa, em Assaré – distante quinhentos quilômetros de Fortaleza -, para pedir apoio. Sentado na cadeira de balanço, pitando seu cigarro, aquele homem de um metro e meio de altura tinha versos afiados na ponta da língua, prontos para afrontar os homens que faziam e fazem da seca indústria, da fome comércio e do latifúndio quintal de sua ganância inescrupulosa. O poeta escarrava para o lado e mandava bala na lata do projeto de político: “Quero um chefe brasileiro/Fiel, firme e justiceiro/Capaz de nos proteger/Que do campo até a rua/O povo todo possua/O direito de viver/Quero paz e liberdade/Sossego e fraternidade/Na nossa pátria natal/Desde a cidade ao deserto/Quero o operário liberto/Da exploração patronal...”

Patativa do Assaré, pajé de nossa cultura popular, como Braguinha, Dino e Jamelão. Exemplos de criatividade, dignidade e cidadania.”

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