quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Fagner - Show do Vivo Rio - por Geraldo Medeiros Jr.

Fagner e Geraldo nos camarins do Vivo Rio


Abaixo, a revisão do show de Raimundo Fagner realizado no dia 29/08/09 no Vivo Rio, RJ - feita pelo amigo de Campina Grande, PB - Geraldo Medeiros Jr.

OS NOVOS VELHOS SONS DE RAIMUNDO FAGNER

Por Geraldo Medeiros Júnior

Fiquei estupefato, boquiaberto. Acompanho shows de Fagner há 22 anos. Na qualidade de fã incondicional, gosto de cada show. Mas, em épocas distintas consigo distinguir as diversas fases e ânimos na carreira do cantor. Cheguei a falar para ele certa vez que os shows estavam ficando muito iguaizinhos, previsíveis, com roteiro repetido ano após ano.

O novo show, que tive o privilégio de ver no Vivo Rio em 29 de agosto, é muito bom. Fagner saiu do lugar comum. Renovou a banda, a sonoridade, o repertório. Isto tudo faz muito bem, para o artista e para o público.
A mudança não foi apenas de banda. Com os novos músicos, trazidos pelo produtor Clemente Magalhães ( na foto ao lado, de barba, junto com o baixista do grupo que tocou no show, André Carneiro), foram feitos novos arranjos, não só para as novas canções, mas também para os antigos sucessos. Os novos arranjos são um tanto mais pesados, têm certo toque eletrônico em alguns momentos, de reggae em outros, mas também soam tradicionais e não descaracterizam os arranjos originais. Fiquei impressionado com o arranjo de Deixa Viver. Aquele solo de Robertinho de Recife da gravação original é maravilhoso. No novo arranjo conseguiram fazer diferente, com aquele solo aparecendo apenas no finalzinho da música.
O repertório é novo também. Claro que em um show de Fagner não podem faltar Canteiros, Borbulhas de Amor, Espumas ao Vento, Revelação... Todas estão lá, mas ganham cara de nova, estão incrivelmente belas.

No embalo das novidades, Fagner garimpou pérolas do seu próprio repertório, porém ofuscadas pelos grandes hits dos antigos discos. É o caso de Bola de Cristal. Acredito que é a primeira vez que esta música entra em um show de Fagner. Ficou muito boa, dançante, coisa mesmo de final de show. É também o caso de Asa Partida, música muito festejada por onde ele passa e de Viajante. Para mim, esta última tem sabor especial, gosto de celebração, já que tenho percorrido tantas estradas para ver shows de Fagner.

O novo produtor Clemente Magalhães é um dos responsáveis pela nova fase. Para mim, o ponto do alto do novo disco, presente também no show, é a sonoridade. Lembro que Caetano Veloso encantou muita gente quando trouxe Jacques Morelembaum para a sua banda. Diversos sucessos tiveram a marca de Jacques. Depois ficou com cara de mais do mesmo. Caetano fazia discos diferentes com a mesma roupagem, arranjos que pareciam se repetirem. Quando ele ousou, montou a banda Cê, novos arranjos e músicas apareceram, possibilitando uma nova e bela fase em sua carreira. Sinto que Chico Buarque tem os seus discos um tanto amarrados ao estilo de Luis Claudio Ramos. Hoje já soam um tanto repetitivos.

As alterações promovidas por Fagner foram muito positivas. Mudanças foram características em sua carreira. Até os anos noventa era comum Fagner gravar discos com determinados músicos e fazer shows com outro time. Na busca de novas sonoridades o único equívoco foram os discos assinados por Lincoln Olivetti que substituiu os instrumentos originais por um som pasteurizado, a partir do uso de sintetizadores e computadores. Mas, em todos os outros momentos, o que se viu foram discos diferentes. Não dá para comparar as sonoridades de Raimundo Fagner (1996), Terral (1997) e Amigos e Canções (1998), apesar de terem sido produzidos em anos sucessivos. São discos distintos, com seus próprios conceitos.
Fagner voltou a fazer um set intimista, com voz e violão apenas. No Rio, ele homenageou Belchior, até então sumido. Fez um medley maravilhoso com A Palo Seco, gravada pelo próprio Fagner no disco Ave Noturna, e Paralelas, que já esteve presente em vários shows. Em seguida uma belíssima interpretação de Motivo, uma das mais belas composições de Fagner, sobre poema de Cecília Meirelles.

O novo show agrada principalmente por significar um período de renovação sonora, porém com muito respeito à história do próprio artista. Para os saudosos da banda que o acompanha há algum tempo, Fagner dá sinais de que a mesma continuará fazendo os shows com ele, principalmente os shows na região Nordeste. Trata-se de um acerto, já que nestes shows, geralmente realizados em praça pública, ele precisa manter um bloco inteiro com músicas nordestinas e nada melhor que a sanfona do maravilhoso Adelson Viana.

Tomara que as novas sonoridades encantem novas gerações. Fagner tem conseguido, em mais de trinta e cinco anos de carreira, trazer para os seus shows pessoas das mais diferentes idades. Ele nunca quis ser rotulado, pois nunca teve preconceitos, gravou os mais diferentes estilos, com os mais diferentes parceiros. Manteve a capacidade de inventar e de se reinventar. Que se mantenha assim, promovendo metamorfoses que alimentem a nossa fome por sons, acordes e pela voz inigualável de Fagner.

Nota do blog: Repertório completo do show na ordem de apresentação das músicas:

Mucuripe/Muito amor/Fanatismo/Uma canção no rádio/Regra do amor/Asa partida/Noturno/Paralelas/A palo seco/Motivo/Quem me levará sou eu/Jura secreta/Revelação/Espumas ao vento/Deslizes/Borbulhas de amor/Viajante/Flor do mamulengo/Deixa viver/Me dá meu coração/Canteiros/Bola de Cristal

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