sábado, 1 de agosto de 2009

Aroldo Araújo - Instrumental

Na época do lançamento do CD solo e autoral de Aroldo Araújo, conhecido e competente músico cearense que faz parte da banda que acompanha Fagner, o jornalista Dalwton Moura fez a matéria que transcrevo abaixo, publicada no " Diário do Nordeste" :


"Além de condensar a experiência de 20 anos no meio musical, o CD “Aroldo Araújo - Instrumental” revela principalmente a personalidade do artista como compositor e arranjador. O disco foi gravado em apenas quatro sessões, no estúdio Vila, em Fortaleza, sob a batuta e a colaboração de Adelson Viana (acordeom e piano), Ítalo Almeida (escaleta), Heriberto Porto (flauta), Ricardo Pontes (bateria), Carlinhos Ferreira (clarinete), Cristiano Pinho (guitarra) e Hoto Jr. (percussão).

O álbum chama a atenção principalmente pela beleza dos temas, em arranjos que sugerem placidez, tranqüilidade no convite a cada faixa. Certamente vai se enganar quem esperar por um disco em que o contrabaixo seja a figura principal, discursando virtuose em solos estendidos. Não é o caso. Há um sotaque da música instrumental brasileira contemporânea, com influências do jazz. Mas o baixo é principalmente um elegante acompanhante das canções, cujas melodias em boa parte são tecidas por acordeom e escaleta. “Amanda”, “Novidade”, “Jardim” e “O músico ao poeta” são exemplos de um leque de ritmos onde cabe até mesmo uma canção de ninar, ainda que com um arranjo sofisticado. Em termos de pegada e timbres, o disco remete à ambiência sonora de trabalhos locais recentes dos quais o próprio baixista participou.

Destaque-se ainda o peculiar “modus faciendi” do trabalho, aspecto percebido pelo cantor e compositor Fausto Nilo, que assina apresentação ao disco: “É notável a síntese amadurecida de seus arranjos com a sofisticada paisagem do silêncio a realçar as delicadas narrativas. Aí são claras as evidências jazzísticas proporcionadas por performances onde as invenções do conjunto de músicos se revelam pelo contato face-a-face, muito mais que pelas burocráticas secções isoladas por processos de play-back”.

A convite do Caderno 3, Aroldo comentou uma a uma as 10 faixas do disco que, ele destaca, é dedicado à sua família e traz uma mensagem de revalorização do sentimento familiar. A seguir, a palavra ao músico:

1. “Amanda” - É uma música que eu fiz pra minha filha, que tem nove anos. Quem ouve percebe que é uma espécie de canção de ninar, mas com um certo grau de sofisticação, a começar da estrutura de compasso composto. Quando minha esposa estava grávida, senti que precisava registrar aquele sentimento de alguma maneira. Quando se faz esse tipo de música, não se pensa em gravar. Mas depois mostrei em shows e resolvi incluir no disco.

2. “Baião em A” - Essa música eu fiz numa época em que eu ouvia muito as coisas do Hermeto Pascoal, o baião que ele toca, um baião meio heavy metal, denso. Aí me deu vontade de mexer com essa coisa, e fiz essa música, em uma leva de composições que mostrei em 1994 em um show no TJA. Nesse show essa música teve um solo de bacias, que o Evilásio Bilas comprou lá perto, no Mercado Central.

3. “Bolero” - Na verdade, não é um bolero. Se for tocado como bolero, fica bem. Mas gravamos em ritmo de salsa, uma coisa mais apressada. Na segunda parte, aí sim, cai um pouco o andamento e volta pra bolero, senão tinha que mudar o nome da música (risos).

4. “Carla” - Essa eu fiz pra minha esposa. Coincidentemente também é em compasso composto, junto com “Amanda”. É uma das músicas mais antigas do disco.

5. “Corrente” - Da mesma leva de 94, é uma música meio Bill Evans, aquele jazz de boate mesmo. O título veio da estrutura harmônica dela, que é uma coisa que não conclui, é um ciclo contínuo. Me lembrei da imagem dos elos das correntes.

6. “O músico ao poeta” - Essa foi um soneto do Ariano Suassuna, que eu musiquei, chamado “O poeta a si mesmo”. Fiz um arranjo, gravei e mandei pro Ariano, mas nunca tive resposta. Então resolvi gravar na forma instrumental, e daí o título.

7. “Ensaio de choro” - É um chorinho que não foi gravado nos moldes chorões tradicionais, com regional. Fizemos com piano, ao invés de violão. E tem um arranjo para quatro vozes, duas flautas e dois clarinetes.

8. “Jardim” - Também da safra de 94, é uma jazz-valsa. Tem a participação do Cristiano Pinho. Acho que veio pelo mesmo viés da “Corrente”, essa coisa do jazz tradicional, meio boate. Mostra uma influência de ter tocado muito em boate e me lembra o Marçal, um dos maiores pianistas que eu vi na vida.

9. “Lembrança” - O meu pai faleceu há cinco anos, e eu acho que logo em seguida eu compus essa música. No disco, é curioso, acabou que eu não toquei nessa música. Eu escrevi umas cordas, e achei que não precisava eu tocar.

10. “Novidade” - Essa eu fiz pra minha mãe, também mais recente. Já que eu tinha feito uma música pro meu pai, depois que ele faleceu, decidi fazer uma pra minha mãe agora, uma homenagem em vida. (DM)"

24/09/2003 – Diário do Nordeste


CD Aroldo Araújo -Instrumental
1-Amanda
2-Baião em A
3-Bolero
4-Carla
5-Corrente
6-O músico ao poeta
7-Ensaio de choro
8-Jardim
9-Lembrança
10-Novidade
Todas as faixas do disco são de autoria de Aroldo Araújo

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