terça-feira, 14 de julho de 2009

Fagner - Capítulo no livro de Ronaldo Bôscoli

Foto: Acervo Ronaldo Bôscoli - Data provável: 1972
Ronaldo Bôscoli, em seu livro “Eles e eu – Memórias de Ronaldo Bôscoli – Depoimento a Luiz Carlos Maciel e Ângela Chaves”- Editora Nova Fronteira – 1994, págs -242 a 245 – fala o seguinte em um capítulo sobre Fagner:

“Raimundo Fagner é um homem que sempre foi marcado por seu caráter. Quando ele chegou ao Rio de Janeiro, passou certas dificuldades. Era estudante de arquitetura, se não estou enganado, veio de Brasília para tentar a vida no Rio e batalhou pra cacete. Ele, Belchior e Cirino moravam num apartamento de quarto e sala. Um dia, ele me apareceu irreverentemente com uma camiseta de leiteiro – branca, de mangas, mas de leiteiro – uma calça esquisita, sandália de couro, quer dizer: vestido de nordestino, mesmo. Foi me procurar no Teatro da Praia. Estávamos fazendo um show da Elis.
-Preciso conversar com você – foi logo me dizendo.
Achei que era um cara forte, ousado, e topei conversar com ele. Contou-me sua história. Disse que tinha uma porção de músicas e que gostaria de incluir uma delas no show da Elis.
-Vamos ver – eu disse, um tanto audaciosamente.
Elis incluiu no show “Cavalo Ferro”, que chegou a cantar, mas depois tirou, e “Mucuripe” que se tornou um dos grandes números dela. Aliás, “Mucuripe” foi o primeiro grande sucesso de Fagner, tendo sido gravada também por Roberto Carlos.
Fagner ficou muito grato a mim. É, e sempre foi, um cara da maior dignidade, do melhor caráter, e começou a aparecer muito no teatro. Elis e eu reconhecíamos o talento e a luta de Fagner e começamos a convidá-lo para jantar num lugar chique, perto do teatro, na Praça General Osório, um lugar que depois veio a ser o Fox mas que, na época, tinha outro nome. Mas ele declinava:
-Prefiro receber a minha parte em dinheiro, porque tenho apartamento para pagar – ele falava francamente.
Especificava com toda clareza e sinceridade a importância de que precisava. Cada vez mais, Fagner ganhava meu carinho, meu amor, e ficou dedicadíssimo a mim. Por acaso, eu conhecia um casal de franceses, Lydia e Jacques Libion, que adorava músicos e artistas. Tinham até abrigado uma porrada de gente, inclusive a mim, Miele, Chico Feitosa e Joana Fomm. Abri o jogo para eles:
-Sei de um garoto maravilhoso para vocês adotarem.
Fagner ficou sendo o filho que eles não tiveram. Morou muito tempo com a Lydia e o Jacques, como um filho querido. Até hoje ele os tem como seus pais cariocas. Ele já freqüentava a nossa casa e promovi o encontro dele com o Ivan Lins, que junto com a Lucinha também freqüentava a minha casa. Os dois chegaram a fazer umas músicas muito bonitas, não sei o que foi feito delas, mas eram realmente lindas.
Depois, Fagner ficou famoso. Venceu. Eu não acreditava que ele tivesse essa audácia porque começou esculhambando os baianos e teve o maior atrito com Caetano Veloso, que era o deus da época. Disse a ele que não ia dar certo. Mas ele encarou. Aliás, tudo que eu dizia a ele que não ia dar certo, ele fazia e dava . Dizia que não podia brigar com os caras, mas ele brigava e dava certo. Acabou sendo o que é: um grande vendedor de discos, um grande ídolo.
E nunca me esqueceu. Sempre me procurou, sempre me deu a maior força, acho até que mais do que devia. Durante minha doença, foi muito meu amigo. Me deixou um cheque para me ajudar nas despesas de médico e hospital - e sem dizer nada. Nem fiquei sabendo, só fui saber muito tempo depois. Eu o chamo de “meu afilhado”.
Tenho a esperança de, um dia, fazer uma música com ele. Ou para ele. Acho que é uma pessoa digna do maior respeito pela audácia com que encara a vida. É um cara que, quando estava pobre, foi muito sincero, nunca abusou de nosso relacionamento. Uma vez, chamei-o para morar lá em casa e Elis ficou puta da vida. Botei cara de machão e ameacei:
-Se ele sair, saio junto.
Com sua característica arritmia comportamental, de puta da vida Elis passou a ficar “apaixonada”, no bom sentido, pelo Fagner. Aí não queria mais que ele saísse de lá. Ele passou uns tempos lá em casa, dormindo na sala e num quarto de cima. Ele jamais esqueceu. Sempre foi grato. E sempre foi meu amigo. Somos muito amigos. É um grande cara.
Eu soube que Fagner está rico e eu acredito. Ele agora é dono, entre outras coisas, de uma repetidora de televisão e de uma rádio em Orós, no Ceará. Um homem que tem isso está começando a construir um império. E ele merece.
Pensei em fazer um livro sobre ele – “Fagner, a saga”, mas o projeto não se concretizou. Ele viaja muito, é difícil encontrá-lo. Mas eu espero ainda ser o “Pero Vaz de Caminha” do Fagner e escrever sua trajetória, que eu conheço como poucos. Quando, hoje, eu o vejo com a Lilibeth, me lembro dele entrando no Teatro da Praia e avalio o quanto subiu durante esses anos. Nos anos 70, começaram a aparecer os supermercados que, aliás, comparados aos de hoje, ainda eram mini-mercados. Tinha um perto do teatro, chamado, se não estou enganado, Mar e Terra. Fagner fazia as refeições lá. Entrava e passeava pelas prateleiras. Comia um Polenghinho, depois um tomate, um bolinho, coisas pequenas e fáceis de comer ali mesmo. Depois, saía sem comprar nada. A caixa o olhava de soslaio, mas não tinha provas. Ele saía com tudo guardado no estômago. Para os amigos, qualificava essa refeição como um “jantar rotativo grátis”. Muito engraçado. Mas ele encarou tudo isso com uma grande sabedoria, sem dor e até com muito orgulho e muita superioridade. Era fatal que acabaria sendo um vitorioso.”

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