sábado, 17 de janeiro de 2009

Mona Gadelha prepara CD com compositores cearenses

Com a comemoração dos 30 anos da Massafeira Livre, com certeza teremos vários lançamentos e projetos para marcar a data. Um deles será a homenagem que Mona Gadelha fará aos compositores cearenses em seu novo CD, a ser lançado em 2009. Reproduzo, abaixo, matéria do jornalista Dalwton Moura publicada no " Diário do Nordeste" de hoje.

Lírica praia alencarina

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Mona Gadelha: entre reminiscências da Massafeira e agradecimentos aos mestres daquela geração, um disco dedicado ao lirismo da canção cearense (Foto: KID JR.)

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Trinta anos após a Massafeira, a cantora Mona Gadelha prepara um disco integralmente dedicado aos compositores cearenses da década de 70. Em ´Praia Lírica´, o desafio do formato piano e voz

Uma saudade incerta, entre cores lusas e africanas. Uma certa melancolia vestida de beleza, entre harmonias instigantes e melodias diferenciadas. Um quê de coisa nossa, única, em sintonia com o mundo a rondar nossa aldeia, capaz de falar a públicos de outras paragens, mas imediatamente reconhecida como expressão de um tempo, um lugar, uma geração.

A canção cearense dos anos 70 ganhou o Brasil na lavra dos compositores e na voz dos intérpretes integrantes da geração que se tornaria conhecida por Pessoal do Ceará. Por mais que sempre se ressalte a incapacidade de o rótulo definir como um grupo uma geração de músicos com claras individualidades e características próprias, o ´Pessoal´ ficou. E permanece como sinônimo de uma produção musical de grande qualidade. Acima de tudo, original, no modo como processou influências várias para tecer uma forma própria para dar vazão a seu lirismo.

Como resultado concreto desses trabalhos hoje estudados por biógrafos e acadêmicos, a recolocação do Ceará no mapa da música brasileira - após as conquistas de gerações anteriores, nos caminhos da fonografia. E uma obra cuja força permanece, apesar de nem sempre receber o devido destaque - seja por novos intérpretes, seja por autores e pesquisadores que lançam olhares sobre o cenário musical.

Com essas duas grandes motivações - o amor por canções aprendidas desde a adolescência e o desejo de contribuir para um maior reconhecimento dessa obra -, a cantora Mona Gadelha está preparando um novo disco. Integralmente dedicado à canção cearense dos anos 70, contemplando compositores como Fagner, Ednardo, Fausto Nilo, Belchior, Rodger Rogério, Ricardo Bezerra, entre outros expoentes do Pessoal.

O disco, que em sintonia com essa atmosfera estética e contextual se chamará ´Praia Lírica´, ganha ainda outros ´ganchos´ interessantes. Após um álbum de estréia marcado por uma linguagem mais próxima do pop-rock e dois outros trabalhos em que soma às guitarras recursos como loops e programações eletrônicas, a cantora aproveita a visita às canções que moram ´na parede da memória´ para se lançar ao desafio de um projeto no sedutor, mas perigoso, formato de voz e piano.

Do ´massacre´ ao tributo

Trata-se, também, de um tributo a esse repertório por parte de uma cantora que, à época, despontou na cena local justamente com uma imagem de contraponto à tradição das canções costuradas ao violão de nylon. Que o digam colegas como o bluesman Lúcio Ricardo e a banda Perfume Azul. Por fim, 2009 marca ainda a celebração de 30 anos desde a Massafeira Livre, evento em cuja produção se destacaram Ednardo e Augusto Pontes, reunindo dezenas de músicos, entre outros artistas, no Theatro José de Alencar. Comprovando a receptividade dos ´consagrados´ para os novos nomes que surgiam, Mona foi, ao lado de Ana e Zezé Fonteles, uma das jovens intérpretes participantes da Massafeira e do disco que dela resultou.

Hoje contabilizando duas décadas desde que trocou Fortaleza por São Paulo e as redações de jornal pelos palcos, estúdios e produções, Mona Gadelha celebra essa convergência entre seu novo projeto - entre outros discos e shows nos quais está envolvida - e a nova oportunidade de um olhar para aquele capítulo da música cearense. ´A minha geração, do Pós-Pessoal do Ceará, ou do prosseguimento do Pessoal, ficou muito conhecida como Geração Massafeira. Embora esses rótulos nem sempre sejam tão acertados, eles acabam ajudando a identificar o período´, comenta ao Caderno 3, em entrevista à Beira-mar, neste janeiro ensolarado de férias em Fortaleza. ´Na época, quando a gente apareceu, com o blues, com o rock, aquela coisa que a gente tinha porque ouvia Janis Joplin, Sex Pistols, e queria colocar na nossa música, era um massacre. Só que esse massacre eu não sei nem de onde vinha, porque entre os músicos nunca houve nada, nenhuma picuinha. Pelo contrário: aprendemos muito´, recorda.

´Quando aconteceu o Massafeira, a maior prova dessa generosidade, dessa aceitação do novo, é que eu e o Perfume Azul fomos convidados´, acrescenta Mona. ´Pra mim, uma menina ainda, ir gravar pelaprimeira vez com cantoras fabulosas, como a Téti e a Ângela Linhares, pessoas com muita bagagem, foi incrível´, reconhece, citando ainda o orgulho de ter tido seu ´Blues Diário´ incluído no disco 2 da Massafeira e elogiado por um dos maiores nomes daquela geração: o pianista e compositor Petrúcio Maia.

Coincidência ou não, foi apenas ao lado de um pianista -Fernando Marques, parceiro em composições e participações em festivais, hoje morando na França - que ela se apresentou durante o evento no Theatro José de Alencar. ´Hoje, estou fazendo esse disco, em homenagem àquele momento da canção cearense, na companhia de outro grande pianista: o Fernando Moura, um músico super respeitado, inclusive premiado recentemente no Festival de Havana, pela trilha sonora que ele fez com o (percussionista) Marcos Suzano´, destaca. ´Somos amigos há mais de 20 anos, e quando pensei nesse disco lembrei dele. É um músico genial, que me dá segurança pela afinidade e por conhecer esse repertório também. Tocou com o Ednardo, o Manassés, conhece a música do Ceará´.

Curiosamente, Mona e Fernando se conheceram em meio a uma tarefa peculiar. ´Foi nos anos 80. A gente conseguiu um estúdio pra fazer uma fita demo, e só tinha umas três horas pra fazer. Com o Fernando, deu tudo certo´, lembra Mona, sem receio quanto ao desafio do novo disco. ´É uma coisa corajosa, né? Mas tenho essa personalidade inquieta mesmo´.

SAIBA MAIS

´Praia Lírica´


A identificação pessoal é o principal norte do repertório do novo disco, segundo Mona Gadelha. ´Apesar de ser muito difícil escolher, porque daria pra gravar um disco pra cada um desses grandes compositores, optei pelas canções que eu sempre gostei, que eu sempre lembrava a letra. Me identifico muito com essa característica das canções. Essa melancolia, essa tristeza, essa saudade, esse choro contido - ou não contido´, ressalta. ´É a nossa praia. A nossa praia é lírica´.

O som do Ceará

´Outra coisa que me motivou a esse projeto foi estar há tanto tempo em São Paulo, sempre acompanhando muito as coisas, estudando, lendo, indo a seminários, cursos, shows. E sempre que se fala em música brasileira, o Ceará nunca é citado. Isso me deixa chateada, não haver um reconhecimento à altura´, afirma. ´Essa questão da memória é muito delicada´.

Contribuição

´Em vez de ficar reclamando, procurei fazer alguma coisa, dentro do que eu posso, do alcance da carreira de uma cantora independente´, diz Mona, que depois de um 2008 bastante movimentado promete lançar o disco este ano, em meio a vários projetos de sua produtora, a Brazilbizz. ´É uma pequena contribuição pra que as pessoas saibam quem foram esses compositores maravilhosos. Coloquei a mão na massa, com toda a modéstia´.

Repertório

Uma prévia do futuro disco disponibilizada ao Caderno 3 revela a atmosfera do novo trabalho. Mona mostra interpretações mais intimistas, diante de canções como ´Astro vagabundo´ (Fagner-Fausto Nilo), ´Noturno´ (Caio Silvio-Graco) e ´Flor da paisagem´ (Robertinho de Recife-F.Nilo). De quebra, uma releitura de ´Lupiscínica´, de Petrúcio Maia e Augusto Pontes.

Mais informações:
Vídeos, músicas e textos sobre a cantora e os discos ´Mona Gadelha´ (1996), ´Cenas e Dramas (2000) e ´Tudo se Move´ (2004): www.brazilbizz.com.br


DALWTON MOURA
Repórter

2 comentários:

memorias disse...

Klaudia,
Obrigada, em nome da música do Ceará, pelo seu blog.Que maravilha todas essas informações ao nosso alcance,
beijos
Mona Gadelha

Klaudia Sander Alvarez disse...

Mona,

Não há o que agradecer. Eu faço o blog com muito carinho e dedicação para divulgar a música que amo. Creio que estou conseguindo levá-la até bem longe. Vc acredita que outro dia mandei um CD do David Duarte para uma italiana que se encantou com a voz dele ?

Grande beijo e obrigada por suas palavras.

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