terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Fernando Rosa - Embornal do Tempo


Reproduzo, abaixo, parte da matéria do jornalista DALWTON MOURA publicada no jornal "Diário do Nordeste" em que o jornalista comenta o novo disco de Fernando Rosa:

"Há quatro anos, um disco chamava atenção para um novo nome da música feita no Ceará. Entre baiões, maracatus, toadas, canções, uma musicalidade capaz de unir elementos mais sofisticados da música brasileira a referências múltiplas ao regional. Passando longe, porém, das costumeiras concessões que, entre estereótipos, simplificações e até estratégias puramente mercadológicas, acabam por minar as possibilidades de novidade na seara da música de inspiração nordestina. Vertente que ali se mostrava, como sempre foi pelas mãos de seus melhores reinventores, fértil e capaz de boas novas no disco chamado ´Guaramiranga´, do cantor e compositor Fernando Rosa. Entre arranjos bem cuidados, poesia de parceiros vários e acordes diferenciados a costurar o principal: boas canções.

Após esse intervalo maior do que faria por merecer a movimentada trajetória do músico desde então, Fernando Rosa está lançando seu segundo CD, ´Embornal do Tempo´. O trabalho inclui três faixas já apresentadas em festivais como o de Meruoca e o da Universidade Estadual do Ceará, cuja graduação em Música o artista se prepara para concluir. Essa vivência do autodidata que busca o saber formal, do menino de fazenda que toma o rumo da capital talvez forneça pistas para se compreender a ponte entre regional e urbano, construída com um sincero e sensível equilíbrio na obra do cantor e compositor cearense - capaz de conceber tanto a força das imagens de ´Coivara´, iminente clássico de uma música cearense ainda por se descobrir, quanto a beleza de canções como ´Flor de mandacaru´, em sua estréia.

Agora, no novo disco, a atenção do compositor se volta para sua face mais regional. ´Desde 2006, quando perdi meu pai, venho convivendo bem mais com o sertão, com o Interior. Tive vontade de fazer um disco com ritmos bem nordestinos, com as letras mais voltadas pro Nordeste, pro sertão´, revela Fernando.´Tem aboio, xote, baião, toada... Um disco mais amatutado´, acrescenta, ressaltando que, apesar de ter o segundo CD como instrumento para falar a um público mais amplo, o cuidado com uma musicalidade mais elaborada não diminui. ´Músicas como ´Canto de vida mateira´ também se destacam pela harmonia´, exemplifica, citando a canção que abre o disco e cuja letra demonstra bem esse sotaque próprio procurado pelo compositor. ´Ao mesmo tempo, tem coisas mais simples nesse disco. Ele pode falar tanto aos músicos quanto ao povão´, aposta.

Sortido embornal

Além de ´Canto de vida mateira´, ´Invernada´ e ´Canto sombreado´ estão entre as faixas do disco que já ganharam destaque em festivais de música. Esta última, no CD, tem participação especial do baiano Xangai. ´Ele é uma das minhas grandes influências, e é muito bom ver uma pessoa que você passou a vida sendo fã participar do seu disco´, atesta.O mesmo vale para outro convidado: o pernambucano Maciel Melo, com quem ele divide os vocais em ´Acredite, meu amor´, xote de Fernando sobre letra de Cleilson Ribeiro, poeta e compositor da cidade de Barro, na região do Cariri. ´O Maciel Melo e o Tarcísio Sardinha, que tocou viola e fez todos os arranjos do disco, fizeram sugestões e acabaram parceiros nesta música´, destaca.

´Águas do esquecimento´ e ´Esteira de flores´ apontam para momentos mais introspectivos do disco, que tem ainda parcerias de Fernando com Sardinha (´Quando bem quiser´), Alan Mendonça (´Em qualquer lugar´), Lenine Rodrigues (´Arco da Aliança´) e Joaquim Ernesto (´Torreame de capelo´). ´Torreame são aquelas ´torres´ que no inverno aparecem no céu. Lá em cima fica como se fosse um capacete, que no Interior eles chamam de capelo´, explica Fernando, justificando também a escolha de ´Embornal do tempo´, que encerra o disco, como faixa-título. ´No embornal a pessoa coloca todos os apetrechos pra ir pra roça: a rapadura, a cabaça d´ água, a farinha... Nas caçadas, a pólvora, o chumbo, a espoleta... É essa idéia de guardar as coisas que você necessita. Minhas lembranças, derrotas, vitórias, tudo que escutei pra criar uma identidade".

Músicos que participam do disco: Tarcísio Sardinha (violão e arranjos), Renato Campos (baixo), Alves Nascimento (sanfona), Hoto Júnior (percussão), Adelson Viana (sanfona), Denílson Lopes (bateria), Aroldo Araújo (baixo), Márcio Resende (flauta), Simone Sousa e Celiane Teixeira (vocais).



FERNANDO ROSA – EMBORNAL DO TEMPO

1- Canto de vida mateira (F. Rosa)
2- Acredite meu amor (F. Rosa/Maciel Melo/Tarcisio Sardinha/Cleilson Ribeiro) – Part. de Maciel Melo
3- Invernada (F. Rosa)
4- Águas do esquecimento (F. Rosa)
5- Canto sombreado (F. Rosa) – Part. Xangai
6- Quando bem quiser (Tarcísio Sardinha/F. Rosa)
7- Esteira de flores (F. Rosa)
8- Em qualquer lugar (F. Rosa/Alan Mendonça)
9- Arco da aliança (Lenine Rodrigues/F. Rosa)
10- Torreame de capelo (Joaquim Ernesto/F. Rosa)
11- Coco de embalo (F. Rosa)
12- Embornal do tempo (F. Rosa)

Um comentário:

Débora Medeiros disse...

Bom saber que o Fernando Rosa está lançando algo novo! Ele é um músico como poucos. Já estou curiosa pra mexer nesse Embornal :)

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