quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Ednardo - Uma entrevista - 1984


Uma entrevista de Ednardo, publicada no jornal de música mineiro “Nossa Música” em 1984
( exemplar no. 16, ano 3) - Entrevista e matéria por Sara Amorim – A foto que ilustra a entrevista está sem crédito de autor.

EDNARDO, O REPÓRTER DE UMA GERAÇÃO

José Ednardo Soares Costa Souza, um cearense que afirma ter nascido na “maior rua do mundo”, a Rua Senador Pompeu. O Ednardo cantor e compositor nordestino, sem a obrigatoriedade do regional, porque para ele, o importante é “diversificar mais e trazer a voz de cada lugar”. “São vários Brasis dentro de um Brasil”, diz, compreendendo que o regionalismo não tem muito sentido diante da fusão de tantas culturas e tantas raças, no que ele chama ainda de “geléia geral”.
Dos seus 10 anos de carreira passou 7 anos em São Paulo e 3 em Fortaleza, um pouco afastado do Rio de Janeiro que ele chama de “vitrina cultural”:
- Rio e São Paulo são grandes vitrinas. É como o departamento de uma loja chamada Brasil. É um departamento de uma vitrina, isso não quer dizer que o pessoal aqui não faça coisas incríveis (do Rio). Só que é um departamento. Em termos de Brasil, é importante a pessoa estar nele.
O seu afastamento da grande roda de arte, que é o Rio, trouxe para ele a compreensão de que “a música brasileira não acontece só nos meios de comunicação de massa”:
- Ela acontece mais na cabeça das pessoas, na interação que a gente possa fazer, ser. Tem as pessoas que gostam de música, que entendem, que transam show, compram disco realmente. O aprendizado é você trabalhar no Brasil, fora desse Brasil que as pessoas entendem de eixão – Rio e São Paulo.
Em 79, encabeçando a efervescência cultural que brotava no Ceará, Ednardo lançou LP duplo, Massafeira, onde reunia Fagner, Belchior. Para ele um disco “muito escamoteado, um momento de transformações incríveis pelo qual as pessoas do nordeste estavam vivenciando.”
Entre profético e antológico, ele comunica:
“Na realidade eu não escolhi um caminho. Eu ando em muitos caminhos. É um caminho muito múltiplo.” Apesar de seus múltiplos caminhos, Ednardo é mais um daqueles que pouco tocam nas rádios e menos ainda aparecem nas televisões. Mas para refrescar nossa curta memória, vamos reencontrá-lo na canção “Pavão Mysteriozo”, gravada em 76, e, buscando mais o passado, em “Terral”: “...no peito enganos mil/na terra é pleno abril/Eu tenho a mão que aperreia/eu tenho o sol e areia/Sou da América, Sul da América/South America/Eu sou a nata do lixo/sou o luxo da aldeia. Eu sou do Ceará.” Era 1973 e o começo de uma carreira ininterrupta. São 10 LPs e pouca explicação para a sua extinção dos meios de comunicação. Ednardo se sente colocado à margem do sistema de comunicação, mesmo tendo sido a sua música “Pavão Mysteriozo”, colocada como trilha da novela global Saramandaia, em 76.
- A música na realidade não foi feita pra trilha de uma novela. Foi até mais uma ponte ente o teatro de novela que Dias Gomes estava fazendo e a percepção que eu desenvolvi com relação à música. Aí que fiz aquele “Pavão Mysteriozo”, uma coisa que envolvia assim a realidade do terceiro mundo, de um país chamado Brasil, nesse realismo fantástico que o povo brasileiro tem, dessas histórias, desses romances...
De 76 prá cá muitas coisas aconteceram, ele continuou em movimento, apesar de não ter sido detectado.
- Eu tive espaço realmente durante este tempo. Mas logo após isso daí, ficou essa neurose. Eu não tô colocando como se fosse uma pessoa isolada nisso daí. Belchior também... Quanto tempo ele não aparece na televisão ? Muitas pessoas não aparecem na Globo. Isso quer dizer o quê ? Que existe uma filtragem. Uma filtragem da linguagem brasileira. Claro ! Isso aí é um feijão com arroz mesmo.
Para Ednardo, essa “filtragem “ fica definida como um ataque cultural e pessoal:
-Porque de alguma forma a gente representa uma coisa muito densa na maneira de pensar do brasileiro. E o artista é o espelho disso daí. Ele coloca algumas observações próprias em relação ao que ele pensa, ao que ele vive, a emoção dele, aquilo que ele consegue criar, o que ele consegue perceber. Em termos mais densos, ele é o retrato do cotidiano. A escamoteação da linguagem brasileira, que não é só das estações de televisão, é do informático brasileiro. É uma das coisas que acompanha muito a pulsação desses últimos 20 anos.
O definhamento cultural é uma reação que vem arbitrária quando se tem medo do novo.
- Este novo vai entre aspas. Esse novo pode ser velho pacas! É o medo de se colocar outras transações no meio, outros elementos de discussão. Medo de deixar mais claro aquilo que a gente vive nesse universo. O monopólio dos meios de comunicação de massa, a ditadura cultural... tudo vem cair nas malhas de uma política de desnacionalização que está aí, corrompendo o país há vinte anos e que por si só, de envelhecida e apodrecida, começa a cair. Ednardo afirma que toda a “amargura tá sendo deixada pra trás, tá sendo atropelada, inclusive, pela própria necessidade de todo mundo viver uma nova realidade”.
- O Brasil começou a se conscientizar não foi nem pela cabeça não, foi pelo estômago. Começou a passar fome braba, não tem onde morar, quando tem , mora mal. Então é isso aí. Mexeu no estômago...começou a mexer na cabeça também. As pessoas começaram a procurar saber o que estava acontecendo realmente, o que foi feito dentro desse tempo todinho, dentro de um milagre, quando tudo estava bem, legal, e o produto interno bruto tava ótimo. A alegria brasileira...O tropicalismo, essas roupas coloridíssimas, a maneira de ser sorridente em relação à vida, tava assim indo de vento em popa. Aí, de repente, vinte anos depois, o pessoal começou a cair na real. E começou a querer recuperar aquilo que a gente deixou de viver para compreender o “aqui e agora”.
A preocupação de Ednardo com o social não fica só nas palavras. Ele deixou registrado no seu trabalho o cotidiano, o urbano, o sertão. Sempre cigano, “mudando muito, vivendo por outros “Brasis”, ele hoje, se encontra amadurecido naturalmente pelo tempo após ter enfrentado “barras pesadíssimas”.
- De repente minha casa era invadida- poucas pessoas sabem disso daí, os meios de comunicação não relataram isso aí. – Mas minha casa foi invadida, eu passei pelas mesmas dificuldades... minhas músicas foram proibidas quando eu cantei “Guerrilhas do Araguaia”... Daqui há quantos anos, há quanto tempo e quantas as pessoas vão ver com a mesma isenção de ânimos a “Guerrilha do Araguaia ? Foi um acontecimento real, sabe ? Não interessa porque e nem se foi certo ou se foi errado. Foi uma coisa louca as pessoas pegarem em armas para morrerem, matarem.... que é uma coisa terrível, uma coisa triste, uma coisa absurda... as pessoas terem que se matarem para chegarem a uma conclusão de como se deve viver a vida. Isso daí não é o caminho... Mas eu fui repórter da minha época. Uma época em que toda a informação do que estava acontecendo por debaixo dos panos era proibida...
Aos 39 anos Ednardo resolveu morar no Rio, fazer parte da vitrina cultural do país para desfazer “uma série de equívocos”:
- Muitas vezes as pessoas se sentam nas suas máquinas de datilografar e escrevem coisas nos jornais, e pelo fato de você não estar muito presente nesse eixo, essas coisas ficam sem respostas. Uma coisa imbecil que as pessoas escrevem com relação ao trabalho que desenvolvi e desenvolvo durante esse tempo. E como eu estava em outros eixos, não tive oportunidade de resposta.
A melhor reposta certamente ficará com o passar dos anos. É um trabalho que por si só dispensa adjetivos. A música é um registro de épocas e gerações. E apesar de “esquecido” pela “massa” o trabalho de Ednardo vive, está registrado e tem tudo para romper os nós do tempo.

(Sara Amorim)

2 comentários:

AMAWRI disse...

Algumas experiências deveriam ser embaladas e distribuídas nas praças. Este blog, me despertou pra isto. Que alegria me trouxe esta matéria lida de um ídolo que sempre trouxe dentro de minhas ingazeiras no meu ideário cultural, cá no planalto central. Cresci ouvindo ednardo em vinil e sonhando conhecer o Ceará, terra de homem valente etc, coisa e tal. Hoje no cume de meus trinta e nove anos, ainda sonho com isso. Parabéns pelo blog e matérias, condizentes com a cultura tão sólida e pulsante que é a do cearense.

Klaudia Sander Alvarez disse...

Olá Amawri,

Não perca tempo e vá logo que possível à Fortaleza. vc vai se encantar com a cidade e com a hospitalidade dos cearenses que é incomparável.

Obrigada pelos comentários a respeito do blog.

Vídeo de Zeca Zines no You Tube - Sensacional!