segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Caio Sílvio - Entrevista de 1983



Reproduzo, abaixo, entrevista de Caio Silvio, publicada no Jornal “Nossa Música” - uma publicação dedicada à MPB e feita em Minas Gerais - que circulou nos anos 80 e tinha como editor Gustavo de Jesus Werneck e como redatora, coordenadora e diagramadora Sara Amorim, também responsável pela maioria das matérias e entrevistas. É Sara quem assina a matéria de Caio Silvio. A foto de Caio que coloco aqui ao lado – sem crédito de autor - também ilustrava a matéria que saiu na edição no. 10 de 1983, página 15.

CAIO SÍLVIO – UM SOPRO INOVADOR NA MÚSICA BRASILEIRA

Um ilustre desconhecido na música brasileira. Caio Sílvio é compositor, ou “autor” como chama a si mesmo. Começou fazendo música em inglês, porque “era o lance de todo mundo, quer dizer, bem juvenil”. Como muitos, foi para os Estados Unidos e lá participou de um grupo de rock onde tocava contrabaixo. Aos 17 anos já estava de volta ao Brasil e de músico passou a ser também compositor, até então voltado a trabalhos instrumentais, “que eram muito parecidos com as coisas do Dilermano Reis”.

Caio Sílvio tem em suas influências um misto de rock e renascentismo, e em sua formação nordestina um apego à música mineira. “Como a música nordestina é mais ou menos padronizada, naquela coisa de baiano, ela veio pra mim através de um grupo de rock.” Nas constantes voltas que ele dá ao passado, menciona o “Clube da Esquina” como um disco de muita importância para a sua formação de músico. “Tenho muita informação dessa música mineira, do Milton Nascimento, eu sinto ele uma pessoa presente na minha música.” Caio Sílvio sai do normal com um componente harmonial sinfônico, identifica o rock, que sempre viu no Nordeste com o Baião, se considera um herdeiro do renascentismo e ainda assimila coisas da música mineira, barroca. Possui componentes nordestinos com formação pop, melodias com uma coisa de opereta a lembrar Vicente Celestino, como ele mesmo associa e se define: “É uma salada total o que faço”.

Muito dedicado ao estudo da música, há três anos está em Brasilia se aprofundando em orquestração e instrumentação. Lá formou um grupo e com ele quer se lançar como “autor” e cantor. “Estou atualizando a música de Catulo da Paixão Cearense, Paraguaçu, é muito antigo mas é um som que está na minha cabeça. Eu tenho um compromisso cultural e musical com a cultura brasileira, eu acho que é um trabalho muito importante. Mas a idéia de ser cantor veio de uma professora lá de Brasília, dos tempos que ele participava de um coral, e a professora cismou que ele tinha que ser tenor, “ela ficou no meu pé, e como ela é uma pessoa muito competente, eu acreditei, daí fui atrás da minha voz e comecei a estudar canto.” Caio Silvio se mantém atento com a junção das duas coisas: “Eu sou fundamentalmente um autor, sou um aprendiz de cantor.” Compondo há 10 anos e cantando, um disco ficou sendo inevitável: “O estudo de canto me possibilitou cai na luta como todo mundo.” Mas sem precipitações: “Primeiro eu quero ter uma relação pessoal com palco e com público, pra ver se eu to viajando sozinho. E pra madurecer o disco.”

Caio Sílvio teve sua primeira música gravada por Fagner, e vejam só, é o autor de “Noturno”: “O Fagner viu uma apresentação da gente durante o SBPC, lá em Fortaleza, viu e pediu uma fita pra gravar uma outra música, do Graco e do Raimundo Osvaldo. E gravou Noturno, nesta fita nós incluímos Noturno, mandamos três músicas pra ele e ele gravou Noturno. Quando ele ouviu casou muito com a música, disse que era a música que tava faltando pro disco dele, e ficou muito emocionado.” A curiosidade em torno de Caio Sílvio já existia, quando Simone gravou “Pequenino Cão” de Caio Silvio e Fausto Nilo, outro sucesso garantido. “A gravação de Simone foi que me situou como autor.” Caio completa. Pode parecer coincidência, mas foi com “Noturno” que Fagner chegou ao auge da carreira, e Simone com “Pequenino Cão” puxado o álbum “Amar”, sobe violentamente no gráfico de vendagens de discos. Mais tarde vem sua primeira experiência com pedidos de músicas, as tradicionais encomendas, uma música feita especialmente para Joanna””Vertigem”.

Deixa bem claro que não tem preconceito quanto a quem grava sai música, o importante é que seja gravada. Wanderléia também grava Caio Sílvio. Amelinha inclui “Sertão da Lua” em seu último LP (Romance da Lua Lua), onde pode ser identificada toda a “salada” de influências que Caio Sílvio diz ter. “Sertão da Lua” (Caio Silvio/Ricardo Alcântara) pode ser vista como a modernização rítmica de “Luar do Sertão”, uma característica do trabalho que Caio Silvio se propõe a fazer. “Quando eu vi o Milton Nascimento, lá em Brasília, chamar o Luiz Gonzaga e cantar “Luar do Sertão” eu fiquei todo arrepiado, pra mim era a coisa da música mineira e da música nordestina, que tem toda uma tradição. E se eu fosse fazer aquela música seria diferente, mas teria todos aqueles elementos. Não é à toa que eu escolhi Belo Horizonte pra eu fazer um show, acho que tem uma relação com a minha música.”

(SARA AMORIM)

Nenhum comentário:

Vídeo de Zeca Zines no You Tube - Sensacional!