segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Tiago Araripe - Cabelos de Sansão em CD - HOJE


Reproduzo, abaixo, matéria publicada hoje no "Diário do Nordeste" de Fortaleza:

"Cabelos de Sansão": álbum de Tiago Araripe traz canções álbum onde cada canção que soa como um clássico, exalando um lirismo e uma vibração que colam várias referências

É o relançamento do ano.

Não só por nossas plagas. ´Cabelos de Sansão´, de Tiago Araripe, 1982, é uma jóia reeditada pelo Saravá Discos, de Zeca Baleiro, que participa do seu lançamento em CD hoje, no Sesc Senac Iracema

Havia um cearense na Lira Paulistana, aquele movimento que revelou ao mundo outros talentos não estritamente paulistanos como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Vânia Bastos. Era Tiago Araripe, autor do segundo álbum do “movimento”, logo depois de Itamar estrear em “Beleléu”. Responsável pelo resgate de obras do capixaba Sérgio Sampaio e ainda dos maranhenses Antônio Vieira e Lopes Bogéa, além da transcrição em disco de poemas de Hilda Hilst, Zeca Baleiro e seu Saravá Discos voltam a atacar, relançando “Cabelos de Sansão”, um álbum visionário que poderia ter sacudido a canção brasileira, em plena ebulição criativa pelos anos de liberdade que se afirmavam. Faltou pouco. Uma pena. Triste mesmo. Mas o estranho lirismo de Tiago Araripe, mesclando Ednardo e Lira Paulistana, está de volta, isso também interessa. Ainda pode dar uma dimensão do universo que ele ousou expor naquele 1982 onde todo mundo só queria saber do Araken, o personagem global da Copa da Espanha...Trezentos músicos, 300 horas de estúdio, quatro meses. No caldeirão sonoro, tinha até um grupo chamado Sexo dos Anjos, com o qual Tiago desaguou outras experiências... Uma viagem. Produção de cordas, metais, muitos. Tem até uma colagem de “Strawberry Fields Forever”, dos Beatles. Uma coisa artesanal, quase inimaginável nesse tempo quando as tais colagens viraram samples e as tecnologias passam a um fio da esterilização da música. Não em “Cabelos de Sansão”, um álbum onde cada canção soa como um clássico, exalando um lirismo e uma vibração que colam referências da boa tradição de xotes, cantigas e maracatus nordestinos com saudações a um rock experimental, industrial, progressivo, pós-tropicalista. Em alguns momentos despertando para Os Mutantes, noutros para uma irreverência típica de um Eduardo Dussek ou dos colegas de Lira Paulistana, o que, no caso de Tiago, representava estar próximo também da poesia concreta e de Frank Zappa.Araripe ficaria 23 anos em São Paulo. Não foram suficientes para que o público e a crítica da Paulicéia confirmassem a expectativa de seus colegas paulistanos. Algo que demonstra como não só por aqui as coisas boas acabam sendo desprezadas. Claro, o álbum foi gravado com uma grande estrutura, sob produção de Wilson Souto Jr. Mas nem todo o apelo vanguardista que sempre acompanha a sina paulistana, da arte à política, foram capazes de absorver os encantos secretos do disco de Tiago. Mesma situação que os demais “paulistanos” enfrentaram. Mais uma falha estrutural do planeta São Paulo que, por osmose, como de costume, acabou se perpetuando em nossas rádios e toca-discos. Felizmente, por uma iniciativa pessoal de Zeca Baleiro, admirador do álbum desde sempre, este processo pode finalmente ser um pouco revisto. Viraram parceiros em “Esfinge” e “Baião de Nós”.De Oswaldinho do Acordeom a Cid Campos , Itamar Assumpção, Tetê Espíndola e Vânia Bastos estão no disco. Mas o disco tem outros achados, como Oswaldinho do Acordeom e Cid Campos, músico-poeta que dá continuidade até hoje à linha concretista dos irmãos Campos, ele é filho de Augusto. Cid pertenceu ao célebre Papa Poluição, paulistano por excelência vanguardista, em que ele e Tiago, entre outros como o também cearense Xico Carlos, mostravam suas idéias, divididas até com Belchior, como Tiago contou há alguns meses em entrevista ao Caderno 3. Em “Cabelos de Sansão”, elas se materializam com força, numa música que até hoje Tiago não sabe, ou não precisa, definir. Foram 33 músicos para dar dimensões siderais e telúricas às 10 faixas, um ano de trabalho, uma parceria criativa danada, infelizmente desprezada pelos donos da rádio, da televisão, da mídia.Neste lançamento de hoje no Sesc Senac Iracema, vendido a vinte pilas, é possível conferir os sintetizadores de Dino Vicente e a metaleira (com nomes como Mané Silveira) entre o coro com Itamar, Tetê, Turcão, Passoca, Vânia Bastos, em faixas como “Coração Cometa” (parceria com Jorge Alfredo), um funkão marcado pelo lirismo: “Cada homem tem/um coração cometa/de traço em traço/desenhamos nossa linha/ nas estrelas”, isso cantado com um frescor e um forte sotaque cearense que marcarão todo o álbum. Em seguida, a faixa-título traz toques de maracatu e de bandas de pífano, bem comportados por outras flautas e teclados, e logo subvertidos por um baixo mais pesado, uma lindeza que Ednardo deve ter conhecido. “Quero trazer pra bem perto/o sol do meu coração/Para clarear a noite/Qual fogueira de São João”...Em “Cine Cassino”, o lirismo das “pernas gordinhas” da amada ganha cordas e uma sessão não vista ganha um coro final no refrão que deveria ter sido suficiente para virar clássico: “os criminosos sempre voltam ao local do crime”, bem Lira Paulistana, além da tal colagem, lírica que só, com “Strawberry...”. Tem canções mais nordestinas como o jovial xote-baião-funk “Fôlego de 7 Gatos”, ao fole de Oswaldinho do Acordeom, com os versos: “e quando o sol/brilhar outra vez/eu quero estar gozando/teu coração/tua alegria/tua paixão/teu jambo”. O lirismo também ganha o espaço sideral entre os ainda visionários “Fios da light”, com belas flautas e referências como “tremi na base” e “trilhos do tatibitati”... Em “Estrela-do-mar” (Tiago e Cid Campos), cometas e órbita lunar param no olho da “moça zona azul/pastorando o disco-voador/nas estrelas”. E por aí vamos, pastorando um músico cearense cuja ousadia o credenciava a gravar a célebre versão de Augusto de Campos para “Little Wing” (Jimi Hendrix) com a naturalidade com que vislumbrava uma quase arquiteta festiva, enredo de uma sessão nostalgia (“Meg Magia”) ou uma pororoca pegando fogo, no melhor relançamento do ano.
E Saravá!

Henrique Nunes Repórter

FAIXA A FAIXA

1. Coração Cometa (Tiago Araripe – Jorge Alfredo)
Jorge Alfredo foi aquele compostior do "Rastapé", com Chico Evangelista, daqueles festivais da Globo. E era também um habitante da Vila Madalena, a gente se via muito. Um dia mostrei essa letra a ele, e ele fez a música. Tem um arranjo de metais do Luís Brasil, que se tornou depois um músico bastante requisitado, tocou com Caetano Veloso. Era do grupo Sexo dos Anjos, que fez as bases do disco comigo e tocou no show de lançamento. Eu inclusive batizei o grupo. Que eu me lembre essa foi a única parceria com ele, que hoje é cineasta, mora na Bahia. Encontrei com ele recentemente no Cine Ceará, quando ele veio com o documentário "Samba Riachão".

2. Cabelos de Sansão (T. Araripe)
O disco tem muitas colagens. Uma delas é nessa música, que tem uma bandinha de maracatu que entra sem mais nem menos. Falei pras pessoas: "Imaginem uma bandinha de maracatu que vem do céu, aterrissa e depois vai embora. A gente tinha total liberdade de fazer, isso foi uma das coisas boas do disco. E na época não tinha aquelas facilidades, de você ter um teclado e escolher a sonoridade. Lá, pra gente fazer os sons, fazia um paredão de aparelhos de som, uma parafernália fora de série.

3. Cine Cassino (T. Araripe)
Tem coisas que são muito curiosas como vão se formando. Essa música é um painel de coisas da memória que vão se juntando por associação. Porque na verdade não acontecem nem num cinema, e sim num ônibus urbano. Mas vejo como associações que a memória, a imaginação tece. Essa música foi regravada pelo Luís Carlos Salatiel, e acho que é uma das que ficaram, pra mim e pelo que vejo pro próprio Baleiro, pela construção dela, que é muito instigante, as imagens que usa, uma coisa meio cinematográfica, com jogos de associações inesperadas. Tem também uma colagem com "Strawberry fields forever", também uma música evocativa, que lembra coisas da infância.

4. Fôlego de 7 gatos (T. Araripe)
Essa música é a coisa mais nordestina do disco. Só que mesmo assim a gente fez umas experimentações lá. Porque entrou o Pessoal do Tarankun, grupo de música andina. Ficou uma fusão interessante com os instrumentos andinos. E o Oswaldinho (do Acordeom) também teve um desempenho brilhante nessa faixa, fez umas sanfonas maravilhosas, num espaço de tempo muito curto. Oswaldinho já havia colaborado com o Papa Poluição, no nosso primeiro disco, compacto duplo, lançado pela Chantecler. Ele tocou em "Rola coro", que tem um trecho que toca no filme "Cine Tapuia", do Rosemberg Cariry. Oswaldinho também chegou a gravar em um disco dele "No preparo do rojão", um baião meu e do Luiz Carlos Penna.

5. Fios da Light (T. Araripe)
É uma das minhas prediletas, porque tem a ver com o sonho que eu tive quando a minha filha mais velha nasceu. Eu estava no espaço sideral, e vi duas luzes vindo em minha direção. Pareciam dois discos voadores. Fiquei olhando, até que as duas luzes vieram e entraram nos meus próprios olhos, mas quando chegaram bem próximo vi que eram os olhos da minha filha. Ela era pequena, inclusive tem foto dela no encarte do disco. E ali tive uma percepção que eu estaria, de alguma forma, vendo o mundo pelos olhos dela, e ela pelos meus. Tem essa simbologia muito pessoal.

6. Estrela do Mar (T. Araripe – Cid Campos)
Ali eu queria um som de bolas siderais. Rapaz, o Dino Vicente ficou um bom tempo pra con seguir esse som. Uma hora ele conseguiu um som de bolhas. Mas eram bolhas normais. E não, tinham que ser bolhas siderais (risos)... E acabou conseguindo. A música é uma parceira com o Cid, que integrou o Papa Poluição. Eu conheci o Cid por meio do pai dele, o Augusto de Campos, que eu havia conhecido por meio do Tom Zé. Quando precisamos de um baixista pro disco, lembramos do Cid.

7. Meg magia (T. Araripe)
Essa foi uma referência a situações que vivi na Faculdade de Arquitetura do Recife. Procuramos em São Paulo um gaitista pra tocar nessa música, com uma linguagem mais pop. Mas os gaitistas que a gente conseguia eram mais jazzísticos. Até que alguém lembrou do Tony Osanah, dos Beat Boys, grupo que acompanhou o Caetano em "Alegria, Alegria". Ele chegou, abriu uma maleta cheia de gaitas, ouvio a música, pegou o tom e fez assim um bolo de gaitas, tocando várias ao mesmo tempo. E caiu perfeitamente, todo mundo ficou encantando. Tinha também uma situação de um solo de clarineta, que eu queria num tom de nostalgia, de coisas antigas, e a pessoa lá não tava muito conseguindo encontrar o clima certo. Eu praticamente ditei o solo frase por frase, pelo microfone interno do estúdio. Acabou ficando um solo bem fluente.

8. Redemoinho (T. Araripe)
O Felipe Vagner fez alguns arranjos belíssimos pro disco, como o de "Redemoinho", com cordas, tabla indiana, flauta doce... É uma música que até hoje gosto de escutar. Falei pra ele que gostava muito de "Eleanor Rigby", dos Beatles, que fala de solidão, e essa música também. Queria um arranjo nesse espírito, e ele fez.

9. Asa linda – Little wing (Jimi Hendrix – Versão: Augusto de Campos)
Em um dia em que muita gente se reuniu lá em casa, tocando, cantando, eu toquei essa música do Jimi Hendrix no violão, que eu gostava, colecionava versões dessa música. E o Augusto gostou muito. Perguntou se eu acharia interessante ele fazer uma versão pra música. Eu disse que claro que sim. Na realidade, já tinha uma secreta vontade de pedir a ele, mas tinha uma certa timidez. No dia seguinte, toca a campainha lá de casa, era o Augusto, já com a versão. Fizemos alguns ajustes, e ficou pronta. Pra gravação, quis fugir um pouco do óbvio, que seria a guitarra, e ressaltar o Hendrix mais poético, que me chamou a atenção. Imaginei um sintetizador que fizesse uma simulação da guitarra, uma coisa mais etérea. Já que o Jimi Hendrix tinha-se ido, era como se aquele som viesse do espaço sideral. O arranjo, bem minimalista, inclui uma percussão com uma caixinha de remédio, resolvendo uma percussão bem agudinha, que a gente queria e não tava conseguindo.

10. Quando a pororoca pegar fofo (T. Araripe – J. L. Penna)
Essa a gente procurou fazer um arranjo mais hi-tech, mais eletrônico. Tinha um guitarrista que eu conheci, o Guto Marialva, muito interessante, que tocou. Achei muito legal o jeito como a coisa se desenhou no arranjo, de conseguir um resultado sonoro que de certa forma remetesse à pororoca. No final, os vocais foram uma coisa espontânea. Participam Itamar Assumpção, Tetê Espíndola, Passoca, Mari, Gaby Santini, Turcão e Vânia Bastos.

Loas a Sansão

Falando ao Caderno 3 no último sábado, Tiago Araripe se disse bastante satisfeito com a repercussão positiva do relançamento de “Cabelos de Sansão”. “Depois de 26 anos (do lançamento original do disco), confesso que não sabia muito o que esperar da reação das pessoas. Mas confiei também no taco do Zeca. Acho que na medida em que ele resolveu ter essa atitude, ele tava vendo ali alguma coisa que eu já tava num distanciamento maior. E tô vendo que, realmente, ele tava certo na decisão dele, porque o disco tá tendo uma repercussão boa”.Repercussão que se espalha em críticas – positivas – publicadas por veículos de imprensa de vários estados. “Em algumas revistas especializadas, como a Rolling Stone, tivemos notas muito boas. Isso gratifica pelo reconhecimento do valor do trabalho”, diz Tiago, que depois da noite de autógrafos desta segunda-feira em Fortaleza se prepara para apresentar o disco em outras cidades. “Já tô programando um lançamento pra Recife, em outubro. Quero fazer no Cariri e o próprio Baleiro quer fazer em São Paulo”, adianta revelando planos para um novo disco, de material inédito. “Esse relançamento me animou pra isso. Na realidade, eu não parei de compor, nesse tempo todo. Venho fazendo um bom material, e pretendo lançar assim que possível”.

Dalwton Moura Repórter

Mais informações:Lançamento da reedição em CD do disco ´Cabelos de Sansão´, de Tiago Araripe. Com presença do autor e participação do cantor e compositor maranhense Zeca Baleiro. Hoje, às 20h30, no Centro Cultural Sesc Senac Iracema (R. Boris, 90, ao lado do Dragão do Mar).

CD Saravá Discos 1982-2008 10 faixasR$ 20"Cabelos de Sansão" -

Tiago Araripe

As muitas voltas de um SansãoDe Crato

Tiago Araripe estudou Arquitetura em Recife onde, depois de formar grupos como o Nuvem 33, sacou sua música e foi pra São Paulo. Por lá, ficou amigo dos poetas concretos Décio Pignatari e Augusto de Campos e do cantor e compositor Tom Zé, com quem gravou um compacto em 1974. Em seguida, monta o grupo Papa Poluição, com Cid Campos, Paulinho Costa e José Luiz Penna, que lança três compactos. Acaba integrando-se à chamada Vanguarda Paulistana. Vive em São Paulo por 23 anos. De volta ao Ceará, atua como publicitário, continua compondo, inclusive com Zeca Baleiro, mas não pensa em ter a música como profissão.

Um comentário:

Beatriz disse...

Olá,

Gostaria de divulgar o lançamento do livro "Um Inventário Luminoso ou um Alumiário Inventado: uma trajetória humana de musical formação", do professor Elvis Matos. O livro sai pela editora "DIZ - editor(A)ção" (http://www.dizonline.com.br/), e o lançamento será no dia 26 de setembro de 2008, às 19h. na ADUFC.


Abraço,

Beatriz
mais informações: (85) 99044050/ 87239220

Vídeo de Zeca Zines no You Tube - Sensacional!