terça-feira, 5 de agosto de 2008

Nelson Augusto - Personagem da Cultura Cearense


É impossível se falar de música cearense sem que, de alguma forma, ele esteja envolvido. Nelson Augusto, jornalista e radialista, mantém há vários anos um programa na Rádio Universitária FM, de Fortaleza, que é ligada à Universidade Federal do Ceará, chamado “Pessoal do Ceará”. Diariamente, das 16: 00 às 17:00 hs, é possível se ouvir todas as tendências da Música do Ceará em seu programa, que pode ser sintonizado diretamente no site da rádio (http://www.radiouniversitariafm.com.br/).
Nelson Augusto é também um grande divulgador , mantendo um site de notícias culturais que é atualizado todos os dias e e que é indispensável para quem gosta da música cearense (http://www.nelsons.com.br/).

Eu conversei com Nélson nos estúdios da Rádio Universitária e aqui está o papo que tive com esse grande personagem da cultura cearense.

– Quando você começou a trabalhar na Rádio Universitária ?

NA – Antes da rádio ser inaugurada, que foi no dia do professor, outubro de 81, ela já funcionava em fase experimental. Nessa época, eu estudava na Universidade Federal do Ceará , cursando Letras, e um dos diretores da rádio era o Prof. Marcondes Rosa de Souza e sabia que eu gostava muito de música por conta dos trabalhos que eu fazia, nas cadeiras que fiz com ele . Eu sempre colocava música no meio, aí ele me convidou para conhecer os estúdios, ainda na fase experimental da rádio. Assim eu pude ver como funcionava uma rádio, o que até então eu não tinha idéia de como era. A partir daí eu fui ficando...Na inauguração da rádio eu entrei como bolsista e estou até hoje.

-Você chegou a cursar jornalismo ou ficou só no curso de Letras ?

NA – Depois eu mudei o curso, fui para Comunicação Social e me formei em jornalismo em 86, já trabalhando na rádio, inicialmente como bolsista e depois como profissional de jornalismo. No início foi muito interessante porque eu tinha muitos discos, na época do vinil e a rádio tinha pouquíssimos, aí, praticamente eu trouxe a minha coleção completa pra cá. Estou até aqui com um desses discos, o Cantoria, e foi assim que os ouvintes da rádio tiveram acesso a esses cantores como Xangai, Vital Farias, Elomar e também o Pessoal do Ceará, porque até então as outras rádios tocavam pouco as músicas do Pessoal do Ceará, mesmo aquelas que já faziam sucesso. A não ser os grandes sucessos de Fagner, Ednardo e Belchior, pouca gente tocava. Outras pessoas das novas gerações já tinham seus trabalhos, mas poucos tocavam em rádio e então passamos a divulgar essa música de qualidade feita pelo Pessoal do Ceará.

-Há quanto tempo existe o programa “Pessoal do Ceará” e de quem foi a idéia de criá-lo ?

NA – Em alguns programas da rádio já se tocava a música dos artistas cearenses como “Brasil de todos os tempos”, “O disco da semana”. O Rodger Rogério, do Pessoal do Ceará, foi um dos fundadores da rádio. Ele era professor de física da UFC e fazia um programa de música ao vivo, na sexta-feira à noite, então era um clima de seresta, aquelas músicas românticas. Os artistas vinham todos pra cá, pois eram amigos do Rodger. O nome era “Estação da Noite” ou algo assim. E em outros programas como no “Fim de tarde”, ‘’É preciso cantar”, a música cearense sempre estava presente, isso no início da programação da rádio. Depois, já na década de 90, teve um projeto em que participei junto cm o Pingo de Fortaleza, Eugênio Leandro e o Evangê Costa. Nós promovemos um evento chamado “Ceará em Campo”. Acho que foi em 93, e a partir daí, pensamos em criar o programa específico sobre a música do Ceará. Resolvemos usar o nome “Pessoal do Ceará” pois esse foi o nome do movimento que destacou a música dessa geração para o Brasil todo e até hoje está rendendo frutos por aí.

-Gostaria que você nos falasse sobre o prêmio “Nelsons” da música cearense.

NA – Teve uma ocasião que a Rede Globo fez, em cada capital, uma eleição tanto pela Internet quanto através de cartas, para escolher a pessoa mais importante de cada estado, no século. No Ceará o mais votado foi o Padre Cícero. Há muito tempo eu falava com as pessoas da área de cultura sobre a emoção de se homenagear aos cantores do Ceará, os instrumentistas, os letristas, o pessoal que trabalha com música. Eu sempre falava com as entidades e era aquilo: “É, vamos fazer..” , mas ninguém implementava. Então em 2001 eu comecei a colocar no site http://www.nelsons.com.br/ e percebi, através daquela votação do cearense do século, que eu podia fazer também uma votação para homenagear todos os anos, os artistas da música cearense, já que as entidades como a Funcet e a Secretaria de Cultura não se preocuparam com isso. Deviam ser as entidades governamentais que tem todo o apoio logístico e financeiro, e partiu de uma pessoa, um indivíduo. Como eu tenho o site e a perspectiva de divulgar a música cearense de qualidade, eu aproveitei esse mote, da votação pela Internet e comecei a implementar o prêmio Nelsons. Vamos agora para a edição 2007 e o pessoal gosta muito porque é um reconhecimento ao trabalho do músico. O troféu é uma coisa simbólica, sem valor financeiro, mas tem esse valor afetivo, de saber que alguém está preocupado com o tipo de música que está sendo feita fora desse circuito comercial do forró, pagode e axé.

- E tem também a festa de premiação que reúne todos os música, a confraternização, né ?

NA – A gente avalia não como uma competição, mas como esse momento da união que acontece nos eventos. O próprio troféu é feito por um artista plástico que é ligado à música que é o Válber Benevides. Cada ano é uma edição diferente, por conta da criatividade do Válber. A gente sempre procura celebrar, fazendo desse momento não quem seja o melhor, mas sim o que a votação naquele momento indicou. Geralmente varia muito de ano pra ano quem são os homenageados. Enfim, é uma grande festa essa tentativa de homenagear os artistas da música cearense a cada ano.

- E o projeto 107 – de digitalização de discos, como está ?

NA – Fizemos um projeto, através da lei de incentivo à cultura e resgatamos alguns discos como o Avalon, do Abdoral Jamacaru, o disco que juntou todas as músicas do Pingo de Fortaleza relacionadas à celebração de Canudos, do cearense Antonio Conselheiro. O Pingo tinha feito o disco Centauro e Canudos, mas depois desse primeiro, ele sempre colocava nos seguintes, uma música dedicada à Canudos, daí fizemos um resgate de todas essas músicas em um só CD, o “Cancioneiro de Canudos”. Teve também o disco do Paulo Façanha – Parto – que estava esgotado e acrescentamos outras canções e fizemos esse lançamento. Foi um projeto que, enquanto se faz normalmente um disco, eu fiz quatro.
A idéia é viabilizar outros projetos. Já existe o contato com algumas pessoas, inclusive fora do Ceará, que se interessam em participar desse Memória 107. A idéia é lançar discos da música cearense de qualidade que nunca saíram em CD.

- É importante também mencionar que esses discos podem ser comprados pelo site.

NA – Sim, ainda temos alguns exemplares disponíveis. Tem o “Reflexões Nordestinas”do Nonato Luiz que foi o primeiro disco. O mais importante é que se não fosse esse projeto, esses discos estariam esquecidos, apenas em vinil, que é um formato que está caindo em desuso. Como diz o nome do projeto, a idéia é trazer para o formato do CD esses discos que saíram originalmente em vinil.

-Você já produziu alguns discos. Qual mais te agradou ao realizar o trabalho ?

NA – Tem alguns projetos que ficaram meio esquecidos no que tange à produção direta, mas como apoio logístico, eu participei da elaboração do disco “O Som da Noite no. 1" que é do Paulo Façanha, David Duarte e Júnior Colares. A produção executiva foi do Júnior, mas demos um suporte de incentivo para que o disco acontecesse. Foi feita uma boa divulgação aqui na rádio e o disco projetou o trabalho deles pro nordeste todo. Dentro dessa nova geração de discos alternativos do Ceará, eu creio que o "Som da noite" tenha sido o disco que mais chegou às pessoas, tanto em qualidade, como em quantidade, porque geralmente os artistas aqui fazem os discos através da lei de incentivo e a tiragem costuma ser de 1000 ou 2000 discos e desse, pelo que se tem idéia das edições lançadas já foram vendidas mais de 8.000 cópias. Então, em relação à amplitude do trabalho que foi feito, foi o disco que mais apareceu para o público não só do Ceará, como do nordeste em geral e até fora da região.
O que a gente percebe é que a classe artística que faz os seus discos através da lei de incentivos ou “às próprias custas s.a.”, fica com a distribuição muito diluída, assim como a venda. Quando acaba a tiragem, normalmente não se tem mais dinheiro para fazer nova prensagem. Então o artista não se preocupa em ter seu disco sempre em estoque. Um dos poucos que faz esse trabalho de cuidar de seus discos, é o Pingo de Fortaleza que sempre faz novos discos, mas se preocupa em manter os outros em catálogo. Quando acaba uma edição, ele já faz um novo projeto e vai mantendo seu catálogo. O Eugênio Leandro também faz novas edições de seus trabalhos, mas vou citar aqui o nome de alguns artistas de quem as pessoas procuram os discos mas não encontram: Aparecida Silvino, Chico Pio, entre outros. Acho que eles deviam manter seus discos disponíveis, pois sempre aparecem novos admiradores que querem esses trabalhos, então fica difícil você divulgar esses trabalhos, mas isso normalmente envolve uma série de questões, que voltam sempre na tecla da questão financeira. A distribuição nem tanto porque o artista faz o disco e vende durante seus shows, mas tem outros trabalhos que não chegam até às pessoas. Achei interessante o projeto que o Fausto Nilo fez de lançar em uma caixa os 3 discos dele. Ele mesmo não tinha mais cópias de seus discos.

-Dos discos da música cearense, você tem idéia de qual é considerado o mais raro ?

NA – O disco Massafeira Livre que teve uma edição pequena e que nunca foi lançado em CD é um disco bastante disputado. Tanto a nível de nordeste quanto no restante do país, ele é um disco bem valorizado. Creio que outro também valorizado é o “Em busca do tempo perdido” cujo vocalista era um cearense, o Luiz Carlos Porto. É um disco do grupo Peso. Esse disco é “disputado aos tapas” como se diz, pelos colecionadores. Mas ele pode ser encontrado em CD, em versões alternativas. Creio que esse seria o disco mais concorrido.

-Dos novos nomes da música cearense, tem alguém que ainda não está muito divulgado e que você gostaria de destacar ?

NA – Bem, existem pessoas em vários caminhos, porque o que a gente percebe é que o grande público do Brasil conhece mais a música do Ceará por conta desse “forró eletrônico”, mas existe muita gente boa, que, inclusive faz um forró pé de serra de qualidade e que não tem tanto espaço na mídia, pelo fato de não fazer o tipo de trabalho que se elege para estar nas paradas de sucesso. Tem o Trio Zabumbando que faz um forró pé de serra de qualidade. São os filhos do saudoso e grande sanfoneiro Pedro de Souza, lá de Várzea Alegre.
Na música instrumental tem várias pessoas que se destacam, mas que também não tem espaço como o Cainã Cavalcante, grande violonista que está gravando seu segundo disco, inclusive com a produção de Fagner. Tem o Anderson, um percussionista que toca pandeiro. O pai dele é o Aloísio, que é luthier. O menino está tocando muito bem, inclusive se apresentou com o Nonato Luiz lá no Rio, em um recital de violão. Em um determinado momento do show, tinha umas percussões, um chorinho e Nonato chamou o Anderson. O choro tocado pelo Nonato é diferente, tem uns andamentos que mexem com o ritmo e o menino o acompanhou muito bem.
Tem também a Brena que é filha do Ribamar 7 cordas. Futuramente vai ser uma grande musicista aqui do Ceará. Isso sem falar nos grandes músicos que ficam aqui , porque a gente sabe que na época do Fagner, Ednardo, Belchior, Amelinha e Cirino, realmente se tinha que ir para o Rio. Como diz a música “Carneiro”: amanhã se der o carneiro, eu vou embora para o Rio de Janeiro, as coisas vem de lá e eu mesmo vou buscar”...
Hoje em dia não, existem muitos estúdios aqui em Fortaleza. Inclusive o disco mais recente de Fagner foi todo gravado aqui, no Ararena. Temos também uma fábrica, a CD +
Enfim, não se precisa mais ir para o Sul Maravilha, Rio e São Paulo para fazer sucesso. Mas mesmo assim, eu acho que é preciso visitar de vez em quando porque se não for até lá, fica muito restrito ao espaço do nordeste. Um exemplo é a Kátia Freitas que já está morando em São Paulo. O problema é que a qualidade do talento dela é proporcional à quantidade de gente que também está lá, procurando sua vaga na MPB...
Já está em São Paulo também o Fernando Catatau, que é da banda Cidadão Instigado. O Júnior Boca que é um guitarrista fantástico, que está fazendo um trabalho chamado “psico-jazz”, uma nova vertente do jazz. Lá no Rio está o Jorge Helder que toca com o Chico Buarque, que inclusive colocou letra em uma música dele, no CD Carioca. Tem o Adriano Giffoni, que é de Quixadá, enfim, a música cearense tem muitos destaques, mas devido a esse mercado cruel do disco, onde é preciso matar um leão por dia para poder aparecer, é meio abstrato se dizer o que é fazer sucesso. Hoje em dia, com a internet, não é preciso ter um disco para que sua música seja veiculada. Os meios de comunicação se modernizaram e não são mais como antigamente quando você tinha que ir para o Rio para gravar um vinil.
Hoje você faz um show aqui em Fortaleza, filma com um celular portátil e coloca no “You Tube” e vai para o mundo todo.
E falando nisso, a alternativa para o “You Tube” foi feita por um cearense, em parceria com um coreano. Um novo espaço na Internet, criado por um cearense (http://www.overmundo.com/) . Então os tempos são outros, mas eu creio que as dificuldades também continuam...
Tem muita gente boa fazendo música instrumental. Vou citar outro nome. Esses moram aqui: Marimbanda, que é um quarteto formado pelo Heriberto Porto, Ítalo, Luizinho Duarte e o Miquéas . Temos também a banda Eletrocactus, que mistura a música nordestina com o rock’ n’roll. Temos a Karine Alexandrino que faz o pop-rock São trabalhos das mais variadas vertentes e não apenas o forró eletrônico, né ?

- Tem o Alex Costa também...

NA – Alex já faz a música eletrônica, dodecafônica, a coisa mais futurista. Temos também eventos importantes que divulgam a boa música como Festival de Jazz de Guaramiranga, que acontece em pleno carnaval e fica lotado. Temos também o Festival da Meruoca que já vai para a 4ª ou 5ª edição, tem o Festival de Viçosa... São eventos alternativos a essa massificação da música e que mostram o outro lado da música cearense, a qualidade. Uma música feita com mais informação, de harmonia, de melodia e de mensagem.
E a Rádio Universitária para divulgar, né ?

2 comentários:

Alan Romero disse...

Grande Nelson,
Um verdadeiro embaixador da música cearense e brasileira em geral. Quantas vezes ouvi seus programas aqui em Lisboa.
Parabéns!
Grato pela entrevista, Klaudia!
Abs

Nelson Augusto disse...

Valeu Klaudia e Alan Romero.

Obrigado pelas palavras de carinho ao nosso trabalho em divulgar a música de qualidade, tanto na Rádio Universitária FM de Fortaleza ( www.radiouniversitariafm.com.br )
quanto em www.nelsons.com.br

Saudações musicais

Nelson Augusto

Vídeo de Zeca Zines no You Tube - Sensacional!