quarta-feira, 2 de julho de 2008

Calé Alencar - Personagem da cultura cearense

FOTO DE LUCIANA MARTINS

Reproduzo abaixo, a entrevista que realizei com Calé Alencar para a Página dos Amigos de Fagner, onde eventualmente colaboro. Esse texto foi revisado e corrigido pelo próprio Calé.
Ele é músico, cantor, compositor, produtor, agitador cultural e grande divulgador da música, assim como da cultura cearense. Quando se pensa em cultura na cidade de Fortaleza, é difícil que seu nome não esteja envolvido no projeto. Calé Alencar e cultura cearense são basicamente sinônimos. Passo agora para vocês a conversa incrível que tive com Calé Alencar em Fortaleza, na Casa da Memória Equatorial, onde em cada cantinho das estantes e centímetro de parede se respira cultura e música do Ceará.

1- Como foi que você descobriu a música?

- A música veio no ambiente familiar, primeiramente. A minha família sempre teve muita relação com a arte e a música sempre acompanhou a vida cotidiana da minha família, desde a forma de conviver em casa, com as atividades domésticas, a minha mãe, as minhas tias também, muito musicais. Eu descobri também, através desse convívio familiar, não só a questão da música mas as influências também de todo um repertório de décadas anteriores ao meu nascimento. Eu nasci na primeira metade da década de 1950 e aí meus tios e tias me trouxeram aquele repertório todo, não só da música sertaneja tradicional mas também da música brasileira daquele período e de períodos mais pra trás um pouco. Então isso tudo foi um ambiente super favorável. Também a riqueza da cultura musical do Nordeste, onde você vê música na rua em todos os momentos. Música na feira, os cantadores, os repentistas, os rabequeiros, os cantadores de cordel, isso natural, na rua. Além disso, Luiz Gonzaga principalmente, rádio nos anos 50, começo dos anos 60, depois a televisão, já em Fortaleza. Tudo isso vai atraindo a atenção quando você já tem um pouco de feed back para a questão musical. Eu vim a descobrir música muito cedo, graças a Deus. Foi uma coisa que me iluminou, sempre. E eu sempre tive muita clareza de que a música ia acompanhar a minha vida como o código que escolhi para me comunicar com o mundo.

2- Você pertence à família Alencar, uma família tradicional do Ceará. Fale-nos um pouco sobre isso.

- A minha família Alencar é uma família que vem ainda da serra da Gameleira, da região do Exu Velho, que é a região mais antiga. É onde havia inclusive todo aquele ambiente de disputa entre a família Alencar e a família Sampaio. Sempre havia êxodos de ramificações das duas famílias. A minha mãe ainda nasceu em Exu, vários tios e tias, irmãs de minha mãe ainda nasceram em Exu. A família de meu pai é cearense, de Fortaleza. E meu pai, em Juazeiro do Norte, conheceu minha mãe, que havia se mudado pra lá com meus avós, nos anos 40. Eu fui gerado em Juazeiro do Norte, toda a gravidez de minha mãe foi lá, mas eu nasci em Fortaleza, na Praça da Lagoinha. Porém, voltamos para Juazeiro e aos dez anos de idade voltei para Fortaleza onde moro até hoje. A relação desse ramo da minha família com a terra de Exu, que é a terra de Luiz Gonzaga, como eu falei, minha mãe nasceu lá, então ela carregava toda essa influência do sangue tradicional da família Alencar. Na verdade, existe um ramo que é mais ligado diretamente a Bárbara de Alencar, que é a família Alencar Araripe, e a minha mãe veio da minha avó, da minha bisavó e tataravô que têm o sobrenome Alencar. Esse povo todo foi criado nessa região da Fazenda Gameleira, que eu cheguei a conhecer. Depois de muito tempo, fui lá pra conhecer essa região, fiquei lá um tempo pra perceber ali o ambiente onde minha família foi criada, sobretudo minha relação mais direta com minha mãe e minha avó, que também conheci, ainda no vigor de sua vida e de sua participação como matriarca desse ramo de nossa família e trouxe desse povo uma influência muito grande, não só na questão artística que é uma coisa que sempre permeou a personalidade de um sujeito da família Alencar, de um componente da família que carrega esse sobrenome. A arte está sempre relacionada, mas sobretudo a parte musical, que sempre me acompanhou. A gente tem, inclusive, como constatar, historicamente, que Luiz Gonzaga também era um Alencar do Exu, porque a mãe dele tinha esse sobrenome, Alencar. Ao casar, ela perdeu o sobrenome e adotou o sobrenome do Januário, mas ela era da família Alencar, então Luiz Gonzaga também tem esse sangue, da família Alencar, que é uma família tradicionalmente relacionada com a arte. Minha avó dizia que tinha alguns ramos da família Alencar: os nobres, os intermediários e aqueles que tinham se misturado com o povo. Eu, na verdade, acho que o meu lado tem uma mistura com o sangue negro, com o sangue índio e naturalmente lá da origem dos Alencar que vieram de Portugal para povoar aquelas terras do Exu.

3- Você trabalha muito na divulgação do Maracatu Cearense. Como é isso?

- Como eu falei, fui criado em Juazeiro do Norte, na minha primeira infância, e acredito que trouxe dali o meu fascínio pela dança de rua, pelos grupos que se apresentam na rua. Os reisados, as bandas cabaçais, os grupos de penitentes, os bois. Então eu trouxe essa admiração por arte de rua. Em Fortaleza eu acho que projetei isso no maracatu porque foi a manifestação da cultura tradicional que vi em Fortaleza que mais se parecia com esses folguedos do Cariri, que é uma região riquíssima nesse ambiente de manifestações culturais tradicionais maravilhosas com as quais, inclusive, eu dialogo até hoje, em vários sentidos, de produzir discos ou eventos, apresentações de grupos variados daquela região e também uma interlocução musical. Costumeiramente, nas minhas apresentações musicais tem músicas do Coco da Batateiras (que é um grupo de mulheres do coco), tem músicas da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, tem alguma coisa do Cego Oliveira, então tem sempre essa relação no meu cotidiano como artista. E em Fortaleza, eu acredito que foi o elo que me levou a identificar no maracatu essa força da expressão da cultura popular. Desde cedo eu fiquei fascinado pelo maracatu e fui ver os desfiles muitas vezes. Em 1994 eu passei a ir com outro olhar. Nesse ano eu fui gravar os grupos com um gravador ainda analógico. Arranjamos fitas com o Rodger Rogério, quando diretor da Rádio Universitária... Era um gravador emprestado por Rosemberg Cariry, um Nágara, e aí, com Zé Rômulo, Nilton Fiore e Aurora Miranda Leão, a gente foi fazer o trabalho de registro dos maracatus daquele ano. A partir de 1995, eu passei efetivamente a cantar no maracatu. Fui convidado por Descartes Gadelha pra cantar a loa do Maracatu Nação Baobab. Em 96 e 97 eu saí com o Vozes da África. De 1999 a 2004 eu participei da diretoria e também como compositor de loas no Maracatu Az de Ouro e em 2004 eu fundei o Maracatu Nação Fortaleza, que é um grupo que tem 60% dos brincantes de crianças e adolescentes. Tem também os brincantes que são crianças com mais idade e que passam sua experiência para os demais e é um grupo que a gente cuida com mais carinho, pois é um trabalho centrado, focalizado. Um grupo que eu criei a partir dessa experiência de alguns anos, dez, nove anos participando do carnaval de Fortaleza e criamos uma página que é www.batoque.com/fortaleza e aí colocamos informações de uma forma geral da cultura do maracatu na cidade de Fortaleza, no Estado do Ceará. Não falamos apenas do nosso trabalho, falamos também das questões da cultura afro-descendente, da religiosidade, questão histórica, está tudo lá. E a partir daí eu fui levado também para um trabalho na Federação das Agremiações Carnavalescas do Estado do Ceará como diretor. Nós tivemos uma gestão de seis anos ali e procuramos otimizar essa presença dos grupos de carnaval de rua, e até mesmo trazer o olhar da cidade para o carnaval de rua como um evento de importância para os festejos em que a cidade comemora os seus diálogos com os munícipes, com seus cidadãos. Acho que nós fizemos realmente um bom trabalho ali. A prova disso é que o carnaval passou a interessar a outros núcleos. Nós hoje temos no carnaval de Fortaleza a presença de dez grupos de maracatu. Conseguimos que os artistas da cidade lançassem o seu olhar e o seu interesse para o ambiente do carnaval para tirar qualquer tipo de preconceito ou de mística em relação a esse evento e acredito que nós conseguimos fazer o carnaval assim como uma coisa cotidiana, ter essa relação de pertença com as pessoas da cidade, os artistas, as pessoas que apreciam, né, ou até mesmo aqueles que vão só para fruir desse bem cultural. Acredito que a gente fez esse trabalho, procurando mostrar o maracatu como uma grande força de nosso patrimônio cultural. Hoje a discussão sobre o maracatu é outra, o olhar é outro, a pertinência na avaliação. Nós temos mais grupos de jovens músicos se voltando para a ambiência, para a rítmica, procurando ressaltar essa estética do maracatu, digamos assim. Então isso tudo foi fruto de um trabalho longo, árduo, mas muito prazeroso.

4-Eu gostaria que você nos falasse agora sobre os primeiros discos que você fez: Um pé em cada porto” e “Estação do trem imaginário”.

- Eu comecei a gravar o meu trabalho ainda em vinil, no final dos anos 80. Um pouco antes eu participei de várias coletâneas. O primeiro registro de minha música, em disco, lançado nacionalmente, foi o LP Equatorial, da Téti, onde ela não só escolheu uma canção minha em parceria com o Fausto Nilo para ser o título do disco, como ela também gravou uma outra música que é “Vento Rei”, uma letra que fiz para uma melodia do Zé Maia. Foi uma grande felicidade para a minha vida, pois eu fazia música sem muita pretensão. Eu venho de um hábito assim de fazer música como uma expressão da minha vida. Eu procurei alternativas como adolescente, participei de bandas de baile durante muitos anos, fui músico profissional nesse ambiente, depois comecei a fazer minhas canções, minhas letras, conheci algumas pessoas. A partir do momento em que conheci Ângela Linhares, comecei a fazer shows, ela me convidou pra cantar uma música composta por mim e outra do Aleardo Freitas, comecei a participar de festivais, mas registro mesmo, em disco, aquele orgulho de ter um disco com o meu trabalho, foi a partir da Téti. Logo em seguida, eu participei de um outro show coletivo, com Stélio Valle, Téti, Petrúcio Maia, isso no começo de 1979, e aí veio a Massafeira que é o ambiente ao qual eu estou mais intimamente relacionado. Tivemos shows durante vários dias no Theatro José de Alencar. A gente pode dizer que foi o nosso “Woodstock”, né? Porque foram quatro dias de muita expressão artística. Tudo que se pode imaginar, de artesanato, de música, de cinema, literatura, teatro, poesia. Foi a primeira vez que a arte popular do Cariri veio dialogar com os artistas de Fortaleza. Veio o Patativa, o Cego Oliveira, a Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto, o Severino do berimbau. Era uma turma danada e a partir daí começamos algumas reuniões e, realmente, através da produção do Ednardo e do Augusto Pontes, fomos ao Rio de Janeiro gravar o álbum duplo Massafeira, que saiu em 1980.
5- Existe algum registro disso em imagem?

- Existe esse registro de imagens no arquivo de Ednardo, sim. Tanto fotografia quanto imagem em movimento. Massafeira nem foi só restrito aos cearenses. Eu me lembro que Zé Ramalho veio, Walter Franco, Jairo Mozart, Climério, Dominguinhos, foi uma coisa muito bonita que aconteceu em Fortaleza e eu acho até que por esse espírito coletivo dos três primeiros trabalhos que eu fiz, contando também os outros de teatro que eu já havia feito, tudo foi com muita gente fazendo, então me habituei a isso. Até hoje a gente tem projetos coletivos onde muita gente participa. As produções que eu faço, muitas delas, inclusive as de maior destaque, foram todas com a participação de uma turma danada. Uma reunião de gente pra fazer arte da maneira mais bonita, mais espontânea, e sempre procurando realçar essa questão do Ceará, da nossa cearensidade. É claro que me interessa toda a cultura do mundo, saber o que está acontecendo, mas na hora de registrar esses trabalhos ou de procurar um tema para um projeto ou pesquisa, eu me interesso muito pelas coisas da nossa terra. O primeiro trabalho foi Massafeira, depois participei de vários discos coletivos, tive músicas gravadas por outros artistas, até que eu me aventurei a fazer o meu disco mesmo. Fortaleza já tinha condições de estúdio, onde você tem uma gravação de razoável qualidade, então no final da década de 1980 eu fiz o disco “Um pé em cada porto”, que é o meu primeiro disco e ali também já se desenhava uma coisa que é muito comum no meu trabalho: ele é multifacetado, não existe um estilo. Eu não sou um cantor de forró, nem muito menos de reggae, nem de rock’n’roll, nem de maracatu. Isso tudo está no que eu faço porque eu passei a vida ouvindo a riqueza maravilhosa da música do Brasil, da música do sertão nordestino, da música que toca no rádio, fiz parte de bandas de baile, então é muita informação, né? Eu acho que a gente tem que seguir aquela cartilha do Gilberto Gil quando ele diz que “existem muitas maneiras de se fazer música popular brasileira e eu prefiro todas”. Eu prefiro todas e mais algumas. É importante também estar sempre atento e dialogar com essas novas formas. Por exemplo, meu disco mais recente tem rap, elementos de música eletrônica... diálogos com o pessoal do hip-hop. Ontem mesmo (agosto de 2007), eu fiz uma participação no disco de um grupo de hip-hop lá no Mucuripe, que é o pessoal da “Consciência Armada” e foi uma coisa super prazerosa, foi como se nos conhecêssemos e dialogássemos há muito tempo porque eu estou sempre atento. Como produtor musical estou sempre procurando saber o que é que tem na música do Ceará e ouvindo outras coisas também, para manter um diálogo com o que está sendo feito na atualidade. Então fiz esses primeiros discos como “Um pé em cada porto”, depois eu fiz o “Estação do trem imaginário”, dois anos depois. E esses dois discos eu tive a oportunidade de lançar em um CD duplo que saiu em 1992. E a partir daí eu segui registrando meu trabalho, coletâneas e discos individuais. Já são quatro discos. O mais recente é o disco de loas: “Loas de Maracatu Cantigas de Liberdade”. Estamos agora fazendo um no ambiente de loas que vai se chamar “Costumes e Diversões” e estou terminando o disco do Maracatu Nação Fortaleza, “É de Bambaliê” que é quase como se fosse um disco meu porque eu canto as loas. Eu sou o tirador de loas ou, como dizem os antigos, o macumbeiro do Maracatu Nação Fortaleza, e também componho, né? Eu defino temas, a gente troca idéias e daí eu crio a loa que a gente vai apresentar no desfile do Carnaval e aí a gente está concluindo o CD. Então tem esses trabalhos. Os primeiros são trabalhos em que eu tive a oportunidade de viajar o Brasil inteiro. Não só pelas capitais mas também pelas cidades do interior. Tive a oportunidade de ir à Europa e pela América Latina também. Fui duas vezes à Argentina participar de congressos sobre a cultura afro-descendente, realizar palestras, então realmente me dediquei a esse foco do maracatu como uma maneira de realçar a cultura que há em Fortaleza e que estava um pouco adormecida. Realçar os tambores da terra de José de Alencar.

6- Eu queria saber sobre o projeto “80 anos de Lauro Maia”. Você convidou Fagner para participar e ele canta “Trem de Ferro”. Como foi o convite e a receptividade dele?

- Tem uma história engraçada porque já estava acontecendo o projeto, já havíamos convidado algumas pessoas e Fagner, por ser um artista com uma carreira até internacional, é um cara que tem muita ocupação e às vezes é até um pouco difícil se ter acesso, porque na época em que fazíamos o projeto Lauro Maia (1993), ele ainda morava no Rio de Janeiro. Atualmente ele mora mais aqui no Ceará do que lá, né? E daqui ele programa a vida dele, mas naquela época, ele ficava muito lá, era difícil a gente encontrar e tal. E ele veio na época do projeto Lauro Maia, e numa entrevista, me parece que na TVC, da qual estava participando o jornalista Nelson Augusto, que também é um jornalista do ambiente musical, o Nelson, no ar, perguntou se Fagner toparia participar. Parece que estava acontecendo lá o assunto em que Fagner dizia que gostaria de participar mais de coisas relativas ao Ceará e o Nelson pegou a deixa, já conhecia o projeto que estava em andamento e fez esse convite ao Fagner, no ar. E ele aceitou. O Nelson me avisou logo em seguida que o Fagner tinha aceitado o convite e aí eu fiquei à vontade para convidá-lo e ele foi de uma elegância assim finésima, participou do nosso trabalho. Sabe o João Gilberto? O único compositor cearense que ele gravou foi o Lauro Maia e aí eu tinha essa gravação e mostrei ao Fagner. Ele adorou assim, de cara, e foi aquela canção que ele escolheu, acho que pela beleza da gravação de João Gilberto e ele, ao gravar com Roberto Menescal, acho que recriou ali aquele ambiente da marchinha que João Gilberto criou com harmonias muito bem elaboradas, tanto é que a canção abre um show que ele levou para o Japão no mesmo período em que a gente fazia o projeto Lauro Maia. Ele se apaixonou pela canção e foi ótima a participação dele. Ele esteve conosco no show de lançamento no BNB Clube e sempre foi um cara muito atencioso com esse projeto e acho também que ele, ao ser uma pessoa que tem a referência da história da música do Ceará, ele também tinha consciência da importância do Lauro Maia, que é, na verdade, um compositor que pela primeira vez vai projetar a música popular do Ceará para o resto do Brasil, chegando inclusive a ser gravado fora de nosso país. O Lauro foi gravado na Europa e também na América Latina. Um cara que foi gravado por Orlando Silva, mesmo morando em Fortaleza. Isso é como se você fizesse o gol que Pelé não fez, né? É um feito extraordinário. Morando em Fortaleza na década de 1940, conseguir ser gravado por Orlando Silva, que era um grande ídolo da música popular brasileira, o cantor das multidões. Eu acho que o Fagner reconheceu que estávamos ali realmente tratando de um assunto de vital importância para o registro de um pedaço super importante da história da música do Ceará e foi super atencioso. Em todos os momentos ele participou. Inclusive, a gravação dele, isso não está dito em lugar nenhum, vou dizer agora, ele fez em um estúdio no Rio de Janeiro, não custou um centavo ao projeto. Ele trouxe o DAT, gravado na Companhia dos Técnicos. Foi uma forma de ele participar do projeto dessa maneira também. Além de participar do projeto efetivamente como artista, ele nos trouxe de presente a faixa já gravada, com o violão maravilhoso do Roberto Menescal, ele cantando e mais um músico tocando percussão. A minha relação com ele tem se dado em outros momentos também. Uma convivência muito elegante. Sempre que a gente se encontra é uma coisa prazerosa, do ponto de vista de um diálogo musical, mesmo nós sendo de gerações distintas. Ele tem uma ligação com o “pessoal do Ceará” e eu, como falei, cheguei uma década depois, com o pessoal da Massafeira, mas sempre dialoguei muito com pessoas ligadas a ele, fiz músicas com Fausto Nilo, tenho grande amizade com Ricardo Bezerra, Petrúcio Maia era como se fosse um irmão que tive na vida. Sempre tivemos um diálogo legal. Depois nos encontramos para um trabalho sobre Patativa do Assaré e também foi muito interessante a gente conviver naquele momento, porque ele estava no Rio e eu aqui. A gente trocava muitos idéias sobre a produção do evento, sobre a direção artística, que pessoas convidar para aquele momento. Fizemos um trabalho no Centro de Convenções que foi muito bonito e foi registrado pela TVC e virou um especial depois. Foi uma coisa super legal e prazerosa. Ele é um cara que admiro. Tem uma história também, de 1976, que eu acho interessante registrar. Eu tinha escutado o disco “Raimundo Fagner”, que tem inclusive uma música que eu regravei depois, cantando com a Tetê Espíndola, que é “Além do Cansaço”, do Petrúcio Maia e do poeta Brandão. Então esse disco tinha sido lançado e Fagner veio à Fortaleza e ia fazer um show no Instituto Penal Paulo Sarasate, em Itaitinga. Na época, eu tinha um equipamento de som e o Luiz Cruz, que era diretor da Biblioteca Circulante, me pediu emprestado e levei, com o maior prazer, pois ia ver um show de Fagner. E eu gravei uma fita desse show. Inclusive pedi a ele que cantasse a música “Quatro Graus” e ele atendeu na hora. Apresentou essa canção que eu admirava de um disco que eu tinha que era a apresentação dessa música no Festival Internacional da Canção, acho que de 72, né? E aí ele cantou, eu achei ótimo e fiquei encantado com a generosidade daquele artista que eu admirava. Já era o terceiro disco dele, já vinha de “Manera Fru Fru”, depois “Ave Noturna” e “Raimundo Fagner”, com Wagner Tiso, Robertinho Silva, um time de músicos assim, Robertinho de Recife, acho que Manassés, Tutti Moreno, era uma banda assim, coisas que eu via em discos de Milton Nascimento, Caetano, Gil e estavam ali, tocando com Fagner aquelas músicas maravilhosas, como Paulo Moura, ele estava cercado de gente da melhor qualidade. Esse disco realmente é muito lindo. E aí, fui lá, levei o som, gravei a fita mas, infelizmente, essa fita se perdeu no tempo. Emprestei para uma amiga e ela nunca mais voltou e aí fiquei sem esse registro. Mas essa foi a primeira oportunidade que tive de vê-lo, conversar com ele, depois eu levei a fita na casa dele, ele ouviu e me devolveu. Não sei se ele fez cópia, na época a gente fazia cópia de cassete para cassete, analógico, de qualidade bem precária, mas enfim foi uma forma de conhecê-lo. Depois ele foi no evento “Massafeira”, em que ele também participou, depois eu o vi na organização do “Soro” , do qual ele foi o coordenador. Sempre acompanhei a carreira dele e nos encontros, nessas ocasiões, sempre foi uma coisa muito legal, positiva, prazerosa.

7- E o disco “Equatorial”?

- O LP “Equatorial” é da época em que o Fagner estava na CBS, no selo EPIC, e produziu vários discos de cearenses. Produziu esse da Téti e, claro, ele ouviu esse trabalho meu que ela gravou, que foi o título do disco. Ele canta com ela no disco a música do Petrúcio. Então acho que a gente sempre esteve ligado até sem estar presente pessoalmente. Nós estamos fazendo música do mesmo Estado, eu sempre acho, claro, que eu tomo mais conhecimento das coisas dele do que ele das minhas, mas sempre que é possível, como nessas ocasiões em que relacionei aqui, sempre convivemos com muito respeito e admiração e acredito que o fato, inclusive de eu ter regravado uma música que ele já havia gravado também nos aproximou. E também o trabalho que a gente faz sobre o Patativa, ele, durante muitos anos, e eu depois, produzi três trabalhos com a obra do Patativa do Assaré, o espetáculo que nós fizemos no Centro de Convenções, tudo isso nos aproxima e faz com que nos tornemos irmãos musicalmente.

8– E agora que Fagner está morando em Fortaleza, você vê a possibilidade de um dia ter uma parceria com ele?

- Não sei, na verdade a gente define muito o raio de ação, né? Eu atualmente tenho usado a minha energia de uma forma mais contundente em relação ao ambiente do Carnaval. Tenho continuado a minha carreira, continuo os meus shows, o repertório mais variado com essa visão mais geral da estética musical, mas eu tenho a impressão de que de alguma maneira a gente faz muito pela música do Ceará, né? Isso já é uma forma de sermos parceiros, irmãos da mesma terra, né? Se aparecer alguma oportunidade de fazermos algo juntos, vai ser desfrutado, fruído assim com um prazer imenso, claro, porque as pessoas que de alguma maneira despontam como grandes talentos, é sempre super legal que elas possam estar por perto. Eu tenho uma vontade enorme de estar com todos esses cearenses ou não, de grande potencial e talento próximos a mim, que eu possa ser parceiro, ter um diálogo, mas acho que a gente acompanhando mesmo, já está mandando uma energia boa, está sempre evidenciando. A maneira de estar sempre falando do Ceará, de ressaltar essas pessoas é uma maneira também da gente estar junto. Inclusive, tem uma oportunidade agora de nós estarmos juntos, sem estarmos pessoalmente dialogando, que é o projeto da Denise Dumont, de realização do filme “O Homem que Engarrafava Nuvens”, que é um filme sobre o Humberto Teixeira, onde eu gravei um depoimento e, naturalmente, Fagner participa e aí nós estamos mais uma vez ali, usando nossa força, a nossa voz, a nossa música pra dizer o quanto a gente acredita na arte do povo cearense.

9 – E porque esse título tão curioso do filme? Você pode explicar pra gente?

- Eu conheço isso mais a fundo porque eu editei pela primeira vez o depoimento de Humberto Teixeira para o pesquisador Nirez (Pesquisador e colecionador de discos do Ceará. Um dos maiores acervos de 78 rotações do Brasil). Eu soube no processo do projeto Lauro Maia, que era cunhado de Humberto Teixeira e que compôs com ele “n” músicas, que o Nirez tinha um depoimento em fita de rolo, guardado há muito tempo. E aí, no processo de fazer o Lauro Maia, eu me interessei também por esse depoimento. Transcrevi, eu mesmo, ouvi horas e horas de fita cassete que o Nirez gravou do rolo para o cassete. Ouvi tudo e, à mão mesmo, transcrevi o depoimento. Eu tenho os cadernos guardados. Depois datilografei, foi pra composição, fizemos um livrinho com o depoimento de Humberto Teixeira. Eu fiz isso com um prazer tão grande porque eu ficava ouvindo a voz do Humberto Teixeira, ele cantando aquelas canções maravilhosas, pérolas da música popular brasileira, coisas assim antológicas. Eu fiz aquilo muito mais como uma farra do que um trabalho porque ficar ouvindo a voz de um homem que ficava por trás de Luiz Gonzaga, você não ouvia a voz dele... Ele era o autor daquelas canções junto com Luiz Gonzaga, mas Luiz Gonzaga é a “voz”, né? O que deu eco a todo esse trabalho de poesia, de música, de histórias do Nordeste, tudo, e a voz de Humberto Teixeira era uma coisa nova, super musical. Você descobrir que o sujeito não era só um letrista, era um cara que tinha estudado música, que tocou bandolim, piano, sabia ler partituras, uma história maravilhosa. Aí, no final do depoimento, ele como poeta, diz que tem uma casa na Gávea onde ele fica brincando com a filha e que ele gosta de ficar lá, engarrafando nuvens. É uma forma poética de ele dizer como ficava à vontade em casa, brincando com a filha.
Nesse processo todo, tem uma história interessante: eu ganhei de presente de uma prima dele lá de Iguatu, Marlene, uma fita com uma gravação de uma música que ele dez para a Denise e antes disso, eu havia ganho uma fita, de Evaldo Gouveia, que era de rolo e passou para cassete e um dia fui ouvir, e era a mesma canção da fita da Marlene, só que mais antiga e que tinha o Humberto Teixeira dizendo ao Evaldo como é que devia tratar aquela canção, que falava disso, que tinha feito para a filha Denise. E um dia eu dei de presente isso para a Denise Dumont, filha dele, e foi a primeira vez que essa menina tomou conhecimento desse presente que o pai deixou pra ela. Isso eu tenho como uma das maiores alegrias da minha vida. Ter feito retornar para ela uma canção que o pai dedicou à filha e que veio parar nas minhas mãos, Deus sabe por que motivo, por que energia cósmica isso veio parar nas minhas mãos e eu, com total desprendimento, fiz chegar de volta o recado para o coração para o qual tinha sido mandado no início. Ela ficou muito emocionada, inclusive ela estava com o Lírio Ferreira que é o diretor do filme e ele estava sem a câmera e ele disse: “Rapaz, perdi o início do filme!” E foi assim que ganhei mais uma amiga. Eu acho que a energia boa que a gente manda para o universo, volta, mais colorida, mais bonita.
Eu tenho dialogado também com Ednardo, até porque me aprofundei nesse trabalho de pesquisa e convivência com o maracatu, então a gente vai como todos os outros. Fausto, com quem já compus, vou acompanhando a carreira. Nonato Luiz, mesmo que a gente não tenha feito nada juntos, a minha relação com Nonato é como se fosse um irmão. A gente tem um bem querer que você nem imagina. É um cara que adoro, e ele também demonstra gostar muito de mim. Às vezes conviver é até mais do que fazer uma canção juntos, a gente é amigo, irmão e parceiro.

Um comentário:

Alan Romero disse...

Grande Calé! Ele é daquele tipo de gente especial, que faz acontecer.
Parabéns pela matéria, Klaudia!
Abs

Vídeo de Zeca Zines no You Tube - Sensacional!