segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Virgílio Maia e Cesar Barreto - Corpo de Delito

O cantor, compositor e também advogado, Cesar Barreto, já tinha feito um disco onde musicava os poemas do pernambucano Marcus Accioly, chamado "Nordestinados". Em 1994, ele realizou o projeto "Corpo de Delito" em parceria com o poeta, escritor e membro da Academia Cearense de Letras, Virgílio Maia. A apresentação do CD vale a pena ser transcrita na íntegra:

"Meritíssimos Senhores Ouvintes

PRELIMINARMENTE

Corpo de delito é expressão jurídica que, data maxima venia, vira agora expressão poético-musical, tal e qual noutros tempos se deu com dura lex, sed lex, na voz do sambista Jorge Veiga.

NO MÉRITO

Eis que, em meio a tantos arranhões do corpo que as vias de fato tem produzido, é preciso ressaltar as ESCORIAÇÕES GENERALIZADAS de cada alma, as marcas que o amor, a paixão, o desejo e o desengano tem deixado no sentimento humano, e quem foi que disse que pancada de amor não dói ? E, a partir do enquadramento de todas essas ingratas mulheres no artigo 129 do nosso Código Penal, desfilam neste disco-processo outros tantos penares daqui e doutros mares e em várias dimensões, inclusive naquela nem-sempre-percebida presença que repousa em velhas FOTOS donde um ancestral nos espia com os olhos do tempo, cintilantes qual belíssima ALDEBARÃ, a inatingível estrela alfa da constelação de Touro que rima docemente com romã e manhã, RIMA DE ROMANCE das cantigas d'amigo pr'amiga, em outras eras trazidas pelas velas portuguesas nos tristes fados dos CAMINHOS DAS ÍNDIAS, ai quem deles ainda saberá ? Que o alimento da alma é bem outro, os cearenses também o descobriram e logo inventaram a Padaria espiritual, movimento literário do século passado que plantou semente de frondosa árvore cujos galhos ainda se espraiam ali pros lados do reduto boêmio da 25 de Março com Pero Coelho, quase uma extensão histórica do Parque da Liberdade, hoje Cidade da Criança, onde, outrora, o vento mergulhava nas águas da Lagoa do Garrote, ah, velha Fortaleza. Monsieur Vincent (assim batizado pela Mestre Zenon Barreto) e seus padeiros sempre rodeados de burrinhos (mais ou menos um terço de litro de aguardente, servido em garrafa de guaraná) estão lá, na PADARIA ESPIRITUAL, bar que em dias de alto astral não ficava devendo nada à Bodeguita del Medio de Havana, ao Café Montparnasse de Paris ou ao Café Caminito de Buenos Aires, bons ares (em português) ou aracati (na língua tupi), que os VENTOS da boemia são os mesmos em qualquer lugar, levando e trazendo risos, lágrimas e canções, do mar para a terra e da terra para o mar, Terral, a voz geral do Aracati que o poeta Luciano Maia cantou e antes dele Joaquim Cardozo, o pernambucano que conclamou um imaginário Congresso dos Ventos é relembrado aqui num reggae-cearense que é de ter vindo soprado pelos Alísios ou, sabe-se lá, no dorso branco de uma cavalo alado que CAVALHADA é como um vento forte, que assusta e encanta, amedronta mas fascina, transumano contraste entre outros mil, frutos da Mãe-Natureza que tudo sabe e ensina no Abecedário da Vida, onde se lê, na letra C, castanha, cachaça, caju, chuva - CHUVA DO CAJU - "cajuína cristalina", cai chuvinha. É certo que a chuva nem sempre vem e que a tal Carta do ABC tem também a letra S, de seca, sofrimento, suor e sertão, que a conterrânea Raquel pregou (e virou ponta) nas páginas d'o Quinze, agora cantado numa BALADA que acaba, igual ao romance, na vastidão arranhenta da caatinga, pois a música é essa maravilhosa combinação de energia sonora e universal através da qual alguém, aqui no Ceará, pode cantar um blues para a mesma lua que clareia as areias do Rio Acaraú, em Santana do dito cujo e se espelha nas águas do Mississipi ou do Jaguaribe quando é inverno, lua azul, Blue Moon, triste LUA NA GOIABEIRA ou há séculos pendida sobre castelos que mesmo El Rey desconhecia mas não o mouro ABENAMAR, assim diz a balada-fragmento de um romance castelhano do Século XV que nos chegou pelo canto do Gerineldo, grupo sediado no Canadá e especializado em canções medievais judeu-espanholas da mais autêntica tradição sefardita marroquina, que, ninguém se espante, tem muito mais a ver com as modas nordestinas saídas das violas dos cantadores e com as páginas dos romances de cordel do que se possa vãmente supor.

EX POSITIS

Pois aí estão os autos deste processo lírico-musical, entregues ao julgamento de Vossências. Agora é esperar que se descubra pelo menos algum circunstância atenuante de modo a reduzir a nossa pena ou até, suprema clemência, absolver-nos das faltas cometidas.

T. em que
P. deferimento,
Fortaleza, Ceará, Quaresma de 1994.

Cesar Barreto e Virgílio Maia "

CORPO DE DELITO - VIRGÍLIO MAIA E CESAR BARRETO
1-Escoriações generalizadas (Um samba jurídico) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
2-Fotos (Os olhos do tempo) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
3-Aldebarã (La luz de la lejana estrella) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
4-Rima de romance (Soneto de amizade) (Cesar barreto/Virgílio Maia)
5-Caminho das Índias (Fado da senha) (Nilo Benevides/Virgílio Maia)
6-Padaria espiritual (Uma no pé do balcão) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
7-Os ventos (Homenagem a Joaquim Cardozo) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
8-Cavalhada (Um certo cavalo branco) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
9-Chuva do caju (Comunhão cearense) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
10-Balada d'o Quinze (Para Rachel de Queiroz) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
11-A lua na goiabeira (Lua luna lune moon) (Cesar Barreto/Virgílio Maia)
12-Abenamar (Fragmento de romance castelhano do Séc. XV, autor anônimo, tradução de Virgílio Maia)
Músicos que participam do CD: Nonato Cordeiro, Afonso Soares, Vicente Menezes, José Maria Damasceno, João Ribeiro, Zezinho, Aluísio Januário, Marcílio e Cesar Barreto. Participação no vocal de Nilo Benevides e Beth Araújo.

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