terça-feira, 26 de junho de 2007

Bernardo Neto-Sumaré

Em 1988, a Revista Cultural "O Saco", publicada em Fortaleza voltou a circular, depois de ficar mais de 10 anos sem editar um novo número. Criada em 1977 por José Jackson Sampaio, a revista enfrentou todos os problemas que até hoje desafiam o jornalismo cultural no Brasil. O editorial de retorno do Saco, escrito em 1988 poderia muito bem ter sido escrito hoje. Confira só trechos dele:

"A maior parte da produção cultural nordestina passa desapercebida do resto do país. Fruto de uma indústria cultural desonesta, preconceituosa, fascista e burra. "
"Será que a cultura do nordeste é artigo de luxo, supérflua, diante de nossos imensos problemas econômicos e sociais ? A quem interessa centralizar a cultura desse país ? Estereotipar pensamentos, idéias, comportamentos, linguagens ? A quem interessa calar a nossa boca ? Despejar toneladas de lixo cultural cabeças adentro das pessoas ? E endeusar e mistificar "Gênios" tatibitates que só incomodam a seus próprios vizinhos."
"O que acontecerá nas cabeças brasileiras se todos esses artistas desconhecidos puderem ser ouvidos ? E a que levaria esse possível repensamento de uma realidade brasileira por demais falseada, humilhada, folclorizada ? "...


E por aí vai o editorial. O que mudou desde então ? Creio que o surgimento da Internet veio nos fornecer uma ferramenta boa para que a se possa divulgar, de forma quase que instântanea a realidade musical do nordeste que antes era tão distante e inatingível para quem está ao sul do Brasil.
Com o patrocínio do Banco do Nordeste e impresso pela Prefeitura de Fortaleza, a revista "Lítero-Musical O Saco" , em seu no. 8 , além de artigos, resenhas, desenhos, poemas, fotos, resolveu lançar junto um LP, do cantor e compositor cearense Bernardo Neto. Uma idéia semelhante à do jornal carioca "O Pasquim", que em 1971 lançava o "disco de bolso", um compacto simples encartado em sua edição e que lançou nomes como Fagner e João Bosco.
Não sei se "O Saco" teve edições posteriores a essa, se alguém souber, por favor me corrija.


BERNARDO NETO - SUMARÉ
Lado A:
1- Sumaré (Bernardo Neto/Manoel C. Raposo)
2- Brasão (Bernardo Neto/Francisco Carvalho)
3- Superstição Imortal (Barnardo neto/Millôr Fernandes)
Lado B:
1- Cora Coralina (Bernardo Neto)
2- O Novo (Bernardo Neto/Caetano Ximenes)
3- Vilancete (Bernardo Neto/Moreira Campos)

Vou quotar aqui a resenha do disco que está na Revista "O Saco":

"Sumaré - um canto poético" - Ao decidir-se por editar disco com composições de Bernardo N
eto, o movimento lítero-musical "O Saco" levou em consideração o trabalho de um compositor voltado para a busca constante da sintonia entre a beleza da palavra e da música. Um artista interessado em deixar registrado no tempo o compromisso do homem para com a vida, a poesia e o destino de todos nós numa era de tantas indecisões e desencantos.
Bernardo Neto desenvolve há muito tempo no Ceará trabalho musical que só tem merecido aplauso e reconhecimento. Mas somente o disco era capaz de impulsionar ainda mais seu talento para ser descoberto em outras plagas e receber a mesma admiração dos que vivem nos limites da província cearense. Ao optar inicialmente por Bernardo Neto, O SACO traz à tona o eterno problema do artista enclausurado nas fronteiras de seu Estado, sem perspectivas futuras se não romper os esquemas tradicionais das gravadoras multinacionais.
Ele é o primeiro mas teremos muitos outros ao longo do caminho que pretendemos percorrer, apesar de todos os obstáculos editoriais e apenas com a ajuda e sensibilidade de alguns para com a cultura nordestina. Novos nomes estão na mira. E todos com a mesma preocupação de levar essa sina de viver sob a luz da arte, guiado pela compreensão social e libertária do mundo.
Bernardo Neto escolheu para compor "Sumaré" alguns dos nomes mais significativos da literatura cearense. Ao musicar poemas de autores consagrados, dá outra dimensão à palavra que sempre se manteve no restrito espaço do papel. Amplia, repercute e avança ao lado do poder de criação literária. Em "Vilancete, o compositor torna ainda mais conhecida a produção de Moreira Campos, um dos articuladores do Grupo CLÃ, citado em várias antologias internacionais. Na faixa "O novo", perpetua em melodia os versos de Caetano Ximenes Aragão, autor do grande "Romanceiro de Bárbara". Em "Brasão", Francisco Carvalho, que traz na expressão da linguagem poética a aventura e desventura da existência. (Nota: O mesmo Francisco Carvalho que só veio a ser "descoberto" por Fagner em 2003).
Todos poetas que sabem utilizar com maestria a palavra em sua dimensão mais humana, pura, terna e eterna. Nomes que orgulham o Ceará e nada deixam a dever ao resto do país.
Indo mais além, Bernardo Neto inspira seu violão para prender na melodia "Superstição Mortal" de Millôr Fernandes. E em "Cora Coralina", uma homenagem à mulher de destino humilde, mas de ricas palavras. Bernardo Neto escolheu tal caminho por sentir em cada texto a musicalidade unir-se com o sentimento da força humana em busca de melhor caminho. Música e palavra numa vertente única, inabalável, como a esperança. A esperança de se ter pelo menos o direito de viver. E sonhar. Em "Sumaré", Manoel Carvalho Raposo, autor da letra diz: "Num passe de mágica as cores se misturam, o sol derrama as suas crinas sobre o canteiro dos homens, e a bela orquídea do poeta invade os corações de quem sabe cultivar Sumarés, rosas de amor."

2 comentários:

Dermeval disse...

Muito grato pelas informações a respeito de Bernardo Neto. Eu ouvi o seu disco 'Sumaré' e fiquei impressionado com as músicas. Gostaria de saber como posso conseguir as outras gravações desse autor muito talentoso! Ele tem um site na internet? Onde posso conseguir as músicas dele? Agradeço pela força, desejo sorte e felicidades. D.

jesus disse...

Olá , tenho contato dele caso ainda interesse

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